Casa do Cinza

"O amor não cogita de recompensa. É um sentimento que se basta." Dr. Odilon Fernandes


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NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 8

​CAPÍTULO 8 

Inúmeras caravanas e representações continuavam chegando, formando 

extensas filas, que se postavam paralelas às filas organizadas pelos nossos 

irmãos encarnados, a comparecerem ao velório para render a Chico Xavier 

merecidas homenagens. Dezenas e dezenas de jovens, coordenados por Augusto 

César e Jair Presente, dentre outros, formavam grupos especiais que vinham 

recebê-lo no limiar da Nova Vida, gratos por ter sido ele o seu instrumento de 

consolo aos familiares na Terra, quando se viram compelidos à desencarnação… 

A tarefa de Chico Xavier — explicou Odilon, emocionado — não tem fronteiras; 

raras vezes, a Espiritualidade conseguiu tamanho êxito no campo do intercâmbio 

mediúnico… No entanto a força que o sustentava nas dificuldades vinha de Cima, 

pois, caso contrário, teria sucumbido às pressões daqueles que, encarnados e 

desencarnados, se opõem ao Evangelho. Chico, por assim dizer, ocultou-se 

espiritualmente em um corpo franzino e deu início ao seu trabalho, sem que 

praticamente ninguém lhe desse crédito; quando as trevas o perceberam, cite já 

havia atravessado a faixa dos vinte de idade e em franco labor, tendo pronto o 

“Parnaso de Além-Túmulo”, a obra inicial de sua proficua e excelente atividade 

psicográfica… 

— Dr. Odilon — adiantou-se Paulino —, perdoe-me talvez a inoportunidade 

da pergunta: o senhor crê que Chico Xavier seja a reencarnação de Allan Kardec? 

— Não somente creio, Paulino, como tenho elementos para afirmar que ele o é 

— respondeu o Mentor, corajosamente. — Os que se dedicarem a estudar o 

assunto, compulsando, principalmente, a correspondência particular de um e de 

outro perceberão tratar-se do mesmo espírito. É uma questão que, infelizmente, 

ainda há de suscitar muita polêmica entre os espíritas que mourejam na carne, 

mas, para determinado segmento espiritual, no qual eu me incluo, isto é ponto 

pacifico. São notáveis as “coincidências” ou os pontos de contato entre as duas 

personalidades, inclusive na semelhança física… 

— Alegam alguns, porém, que o Codificador era dono de uma personalidade 

austera, ativa, quando a de nosso Chico Xavier é de característica branda, 

passiva… 

— Os que assim se referem não tiveram, evidentemente, oportunidade de privar 

com o primeiro nem com o segundo — ambos eram austeros e brandos, quando a 

brandura ou a austeridade se faziam necessárias. É claro que a tarefa que Chico 

Xavíer desdobrou, no começo do século passado, se deu em condições um tanto 

diversas da que cumpriu com a identidade de Allan Kardec; o meio não deixa de 

exercer certa influência sobre a individualidade, constrangendo-a a adaptar-se às 

novas condições — uma rosa no Brasil será uma rosa, por exemplo, no Japão, no 

entanto as diferenças climáticas são passíveis de alterar-lhe as características, 

tanto no que se refere à coloração quanto ao perfume… O espírito é sempre o 

mesmo, de uma vida para outra, todavia não há, para ele, como livrar-se 

totalmente da carga genética que o transfigura, mas não desfigura… 

Aparteando, o nosso Lilito Chaves considerou: 

— Você tem razão, Odilon; às vezes, na condição de espíritas, esperávamos de 

Chico Xavier atitudes de maior pulso…

O companheiro sorriu e respondeu: 

— Lilito, entendo o alcance de sua colocação, mas, convenhamos, se o nosso 

Chico tivesse sido mais direto em determinadas ocasiões ou adotado uma postura 

mais enérgica, mormente com aqueles que procuravam com ele uma convivência 

mais estreita, agora, ao invés de admirá-lo como vencedor, estaríamos a lamentá-

lo; o que o fez grande foi justamente a sua capacidade de tolerar, de caminhar a 

segunda milha a que o Senhor nos conclama, que nós não estamos dispostos a 

caminhar com os amigos e, muito menos, com os nossos desafetos. Kardec, se 

era firme na defesa da Doutrina através de seus escritos e pronunciamentos, no 

trato pessoal era doce e afável, tendo com Mme. Gaby, a esposa, um 

relacionamento que ia além dos limites do casamento, conforme ainda se concebe 

em nossa sociedade — mais que marido e mulher, os dois eram qual irmãos e, 

sendo mais velha do que ele nove anos, ela sentia por Rivail o amor que uma mãe 

sente pelo filho; antes que Allan Kardec fosse chamado a encetar a obra da 

Codificação, o casal havia renunciado a qualquer tipo de convivência mais íntima 

na esfera sexual, para devotar-se aos valores do espírito, e, tanto é assim, que 

ambos não geraram herdeiros diretos, porqüanto a vontade do Senhor lhes 

reservara mais alta destinação. Os filhos de Allan Kardec são os filhos da Fé 

Raciocinada, que se multiplicam na Família Humana… 

Neste ínterim, aproximando-se de nós a querida Antusa, médium de cura 

que cumprira de maneira exemplar a sua tarefa, após nos termos carinhosamente 

abraçado, Odilon solicitou que a respeitável irmã opinasse sobre o assunto que 

nos ocupava a atenção. 

Sim, Chico Xavier é a reencarnação de Allan Kardec — disse convicta. Eu sempre 

o soube, mas, dentro da prova da mudez que me assinalava os dias, nunca pude 

me expressar com clareza; não polemizo com os confrades valorosos que pensam 

diferente, no entanto, no meu caso, possuidora, na Terra, da mediunidade de 

clarividência, várias vezes pude constatar a autenticidade do fato: à minha retina 

espiritual, Chico se transfigurava e, em seu lugar, surgia a simpática figura do 

Codificador; também, muitas vezes, em estado de desdobramento, nos instantes 

em que me era possível deixar o corpo e visitá-lo, eu o encontrava na 

personalidade marcante de Allan Kardec… A camuflagem espiritual era quase 

perfeita. É inegável que a obra de um é o complemento da outra: a mesma linha 

de pensamento, a mesma terminologia, a mesma luz…

– É — atrevi-me a considerar, por minha vez —, com a invasão da França, quando 

da Segunda Guerra, e as mudanças sociais a que o país, posteriormente, se 

submeteu, a árvore simbólica do Cristianismo Restaurado consolidou seu 

transplante no Brasil; seria natural que o pomicultor a tivesse acompanhado… 

Digo-lhes que, nos meus tempos de Sanatório, até os obsessores sabiam que 

Chico era a reencarnação de Allan Kardec; inclusive, um grande amigo nosso, 

aliás, o único amigo padre que tive na vida, Sebastião Carmelita, sabia ser este 

mesmo, por revelação mediúnica que o Chico lhe fizera, o Bispo inquisidor que 

ordenara a incineração dos livros de Allan Kardec, em praça pública, na cidade de 

Barcelona. Certa feita, visitando-nos no hospital psiquiátrico sob a nossa direção, 

Chico confrontou-se com o espírito Tomás de Torquemada, episódio que tive 

oportunidade de narrar, acanhadamente, em meu livro “Sob as Cinzas do 

Tempo”…

Lembrando-me de outros testemunhos, após pequena pausa, acrescentei: 

— A Modesta, que incorporava o espírito Gabriel Delanne e, por vezes, nos 

ensejava ouvir a palavra de Léon Denis, não escondia a convicção de que o 

Codificador estava reencarnado e convivendo conosco em Uberaba; Gabriel 

Delanne, por intermédio de sua faculdade falante, disse-nos com clareza, logo 

após a mudança de Chico de Pedro Leopoldo para Uberaba, que Allan Kardec se 

transferira de domicílio e que, por este motivo, eles estavam se transferindo 

também… É evidente que, quando obtínhamos um comunicado desta natureza, os 

espíritos nos solicitavam o máximo de sigilo e, por este motivo, não tornávamos 

pública a revelação; além do mais, não tínhamos provas cabais para oferecer aos 

Tomés do Espiritismo, os que, negando-se a enxergar com os olhos da razão, 

querem ver com os olhos físicos o que depois pedem para tocar com as mãos…