Inácio Ferreira

NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 9

CAPÍTULO 9

Estávamos todos profundamente emocionados. A multidão, dos Dois Lados da Vida, não parava de crescer e, assim como no Plano Físico, os policiais cuidavam da organização, na Dimensão Espiritual em que nos situávamos, Entidades diversas haviam sido encarregadas de disciplinar a intensa movimentação, sem que nenhum de nós se sentisse encorajado a reclamar qualquer privilégio com o propósito de uma maior aproximação. Quase todos nos conservávamos em atitude de profundo silêncio e de reverência.
Os grupos de espíritos que haviam, ao longo de seus 75 anos de labor, trabalhado com o médium, com exceção, evidentemente, daqueles que já haviam reencarnado, se faziam representar pelos seus maiores expoentes no campo da Poesia e da Literatura. Próximas a Cidália, em cujos braços Chico Xavier descansava, à espera de que o cortejo fúnebre partisse conduzindo os seus restos mortais, notei a presença de algumas entidades femininas que eu não soube identificar.
— Quem são? — perguntei a Odilon, que era um dos poucos dentre nós com plena liberdade de movimentar-se.
– Aquelas quatro primeiras, são as nossas irmãs Meimei, Maria Dolores, Scheilla e Auta de Souza; as demais são corações maternos agradecidos que, em uma ou outra oportunidade, se expressaram pela mediunidade psicográfica do nosso Chico.

– Quem estará na coordenação do evento? — insisti, ansioso por maiores esclarecimentos.
— O Dr. Bezerra de Menezes e Emmanuel, assessorados diretamente por José Xavier — respondeu.
– José Xavier?…
– Sim, o irmão do médium, que está conduzindo um grupo de espíritos amigos de Pedro Leopoldo e região; quando Chico se transferiu para a cidade de Uberaba, em 1959, os seus vínculos afetivos com a sua terra natal não se desfizeram; os espíritas que constituíram o Centro Espírita “Luiz Gonzaga” sempre se sentiram membros de uma única família.
– E aquele casal mais próximo que, de quando a quando, dialoga com Cidália?
— José Hermínio e D. Carmem Perácio; foram eles que iniciaram Chíco Xavier no conhecimento da Doutrina Espírita, doando-lhe exemplares de “O Livro dos Espíritos” e de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”…
Pude perceber, com clareza, que os filamentos perispirituais que uniam o espírito recém-desencarnado ao corpo enrijecido, se enfraqueciam gradualmente; sem dúvida, o médium, assim que se lhe cerraram os olhos físicos, desprendeu-se da forma material, no entanto, devido à necessidade de permanecer durante 48 horas exposto à visitação pública, conforme era seu desejo, exigia que o corpo, de certa forma, continuasse a receber suplementos de princípio vital, evitando-se os constrangimentos da cadaverização. Embora aconchegado aos braços daquela que havia sido na Terra a sua segunda mãe e grande benfeitora, o espírito Chico guardava relativa consciência de tudo…
As expectativas de quase todos, porém, se concentravam sobre aquela faixa de luz azulínea, a qual, àmedida que se abeirava a hora do sepultamento, se intensificava; tínhamos a impressão de que aquele caminho iluminado era a passagem para uma Dimensão Desconhecida, para a qual, com certeza, Chico Xavier haveria de ser conduzido.
Dentro de poucos instantes, o silêncio se fez naturalmente maior e um venerável senhor, ladeado por Irmão José e Herculano Pires, este um dos vultos mais importantes da Doutrina nos últimos tempos, assomou discreta tribuna e começou a falar.
– Quem é? perguntei à meia-voz..
— Léon Denis — respondeu-me Odilon com um sussurro.
— “Meus irmãos — disse o inesquecível discípulo de Allan Kardec —, eis que aqui nos encontramos reunidos, para receber de volta ao nosso convívio, aquele que, uma vez mais, cumpriu exemplarmente a missão que lhe foi confiada pelo Senhor de nossas vidas. Elevemos ao Infinito os nossos pensamentos de gratidão e de reconhecimento, porqüanto sabemos das dificuldades que o espírito que moureja na carne enfrenta para desbravar caminhos à Verdade; o nosso amigo e mestre que, após longa e desgastante peleja, agora retorna àPátria Espiritual, se constituiu num verdadeiro exemplo, não somente para os nossos irmãos encarnados, mas igualmente para os que necessitamos renascer no orbe e, por vezes, nos sentimos desencorajados… De maneira direta ou indireta, cooperamos com ele, para que a Obra que ele próprio encetou, na segunda metade do século dezenove, se desdobrasse na revivescência do Evangelho; a semente espalhada por suas mãos, germinou prodigiosamente, e não apenas no campo da bibliografia espírita, que se enriqueceu sobremodo… Desde o 8 de julho de 1927 e, mais especificamente, o ano de 1932, com a publicação de “Parnaso de Além-Túmulo”, pela Federação Espírita Brasileira, o Movimento Espírita cresceu em progressão geométrica e os grupos doutrinários e assistenciais, que falam da pujança da Terceira Revelação, se multiplicaram em toda parte… Agora, porém, é conosco — enfatizou o grande orador. — Agora somos nós que, no alvorecer do Terceiro Milênio da Era Cristã não mais devemos hesitar em tomar corpo no planeta que, espiritualmente, deverá se elevar conosco. Não tenhamos qualquer receio. Sigamos as pegadas do mestre lionês que soube ocultar a própria grandeza, aceitando a bênção de um novo renascimento quase de imediato àquele que já lhe havia sido, na França, de lutas acerbas para lançar os fundamentos do Espiritismo. Nós, os que, então, não tivemos a coragem de acompanhá-lo na dificil empreitada, devemos sucedê-lo no esforço e na boa vontade, que sempre lhe caracterizaram o apostolado. O mundo não pode mais esperar e, dentro do natural dinamismo da Doutrina, carecemos de cooperar para que a luz da imortalidade que se acendeu entre os homens, não se eclipse nas sombras do materialismo. Com o amor de Jesus no coração, a exemplo do nosso inesquecível Prof. Rivail, triunfaremos. É chegado o instante de nos candidatarmos ao serviço da construção da fé no mundo, cada qual de nós atuando em determinada área do Conhecimento; renunciemos à posição cômoda que desfrutamos, à maneira do general que apenas participa da refrega pelas lentes de um binóculo, sem jamais ousar descer ao campo de batalha…
Promovendo ligeira pausa, o eloqüente tribuno prosseguiu.
– Muitos de nós, os que nos equivocamos nos caminhos do mundo, prevalecemo-nos das faculdades mediúnicas do nosso irmão para, anonimamente por vezes, não nos omitirmos de todo na grande Obra, todavia não mais podemos sonegar as nossas mãos no cultivo de abençoada sementeira da crença e no ideal. Simbolicamente, com o desenlace do Mestre, que viemos saudar em seu regresso triunfal, o esquema traçado pela Espiritualidade Superior e que se colocou em prática, ao longo de mais de sete décadas, agora se desmonta; as tendas espirituais que foram armadas ao seu derredor, se levantam e, para que não nos transformemos em nômades no Além, devemos começar a planejar o nosso retorno à vida fisica, dando seqüência à tarefa que nos era cômodo desempenhar deste Outro Lado da Vida… Eis o alvitre que, um nome Daquele que nos ama desde o princípio, fui encarregado de lhes transmitir, aproveitando o ensejo de estarmos todos reunidos nesta oportunidade. Um ciclo se encerra, mas outro deve começar… Esqueçamos caprichos de ordem pessoal e, embora atrelados à Lei do Carma, que nos reclama o espírito para inevitável resgate, assumamos o compromisso de servir, a exemplo de Allan Kardec, ou Chico Xavier, o iluminado espírito que em duas existências consecutivas, consolidou para a Humanidade os princípios da Fé Raciocinada”.

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