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NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 12

— Eu estou bem! E o senhor, como está? — retrucou o fundador da “Casa Transitória”, benemérita instituição existente na capital de São Paulo.

— Você não perde o hábito de me tratar de senhor, não é mesmo? — retrucou Batuíra. Olhe que eu estou mais rejuvenescido do que você…

Sorrimos descontraidamente e Gonçalves explicou que, na companhia dos irmãos Weaker Batista e Clóvis Tavares, também estava participando da recepção que o Mundo Espiritual oferecia ao médium Chico Xavier.

— Ele e o senhor, desculpe‐me — acrescentou —, ele e você nos auxiliaram muito com as orientações de que necessitávamos na “Transitória”; o Chico sempre foi um grande amigo e benfeitor… Desde Pedro Leopoldo, tivemos a alegria de acompanhar a sua trajetória mediúnica de verdadeiro missionário do Cristo.

— De fato, agora podemos falar a respeito — disse Batuíra, cujos traços biográficos não me eram de todo desconhecidos na luta que sustentara por amor ao Ideal.

Entrementes, se aproximaram para participar do diálogo o Weaker e o Clóvis, que, até então, se haviam mantido a certa distância, atendendo a três Espíritos de sofrida aparência que os interpelara.

— Weaker, estamos nos referindo à grandeza de espírito do nosso Chico… Você que conviveu mais de perto com ele durante tantos anos, poderá se expressar com maior conhecimento de causa, não é? — falou Gonçalves ao companheiro que eu igualmente conhecera à frente das atividades do “Grupo Espírita da Prece”.

Franzindo o cenho, Weaker comentou com certa tristeza no semblante:

—‐ Infelizmente, qual aconteceu a muitos dos que puderam conviver com ele, eu também não consegui atinar com o seu real valor, senão quando deixei o corpo, onde os equívocos se nos fazem tão frequentes; não estou querendo me justificar, mas, embora tenha aproveitado muito na convivência diária com Chico, a verdade é que eu poderia ter assimilado mais, caso o meu espírito, em determinadas situações, não se tivesse mostrado tão rebelde…

— Ora, Weaker — aparteou Clóvis Tavares, que, na cidade de Campos, Rio de Janeiro, fundara, sob a inspiração do médium, a “Escola Jesus Cristo” —, não se recrimine… A verdade é que a luz intensa costuma deslumbrar os nossos olhos acostumados à sombra. Como é do seu conhecimento, estive com o Chico diversas vezes e, durante longos anos, nos correspondemos.

40 – Carlos A. Baccelli (pelo Espírito Inácio Ferreira)

Estive em Pedro Leopoldo, Uberaba, e ele esteve conosco em Campos, inclusive descansando por uns dias em nossa casa de praia em Atafona; pois bem, igualmente confesso que, por maior fosse a minha admiração e o meu respeito a ele, eu não sabia que estava lidando com um Espírito de tal envergadura…

— Permitam‐me a intromissão — falei, tomando a defesa do amigo que sempre me tratara com tanta gentileza, nas poucas vezes em que visitara Chico Xavier na “Comunhão Espírita‐Cristã” —; eu também me penitencio, Weaker, pois, para mim, Chico não passava de um grande médium, nada mais do que isto… No entanto, se algum de nós, ainda na carne, tivesse identificado a sua estatura espiritual ou tido a convicção plena de que se tratava do próprio Codificador reencarnado, é possível que extrapolássemos em nosso relacionamento com ele, criando‐lhe sérios embaraços; bastem já os obstáculos que, involuntariamente, lhe causamos com as nossas descabidas exigências ou pontos de vista personalistas…

Concordando comigo, a irmã Yvonne Pereira observou:

— Para os próprios apóstolos, o Cristo só foi compreendido em sua grandeza divina após o episódio de sua ressurreição; até então, Judas o traíra e Simão Pedro o negara… Se não se tivesse confirmado a vitória do Mestre contra a morte, constatada por Maria de Magdala, é possível que os onze tivessem recuado da tarefa de levar adiante a Boa Nova…

— Bem lembrado, Yvonne — enfatizou Carmelita. E não olvidemos que, para incentivá‐ los, o Senhor permaneceu durante quarenta dias concedendo‐lhes aparições e proporcionando advertências de viva voz, tendo‐se, inclusive, mostrado redivivo, na Galileia, a quinhentos discípulos de uma só vez… O Grande Paulo de Tarso não se teria convertido ao Cristianismo, se o Senhor não lhe tivesse aparecido de forma insofismável, às portas de Damasco, orientando‐o em seus passos iniciais.

— Meus irmãos — confortou‐nos Odilon —, a misericórdia de Deus e o nosso querido Chico saberão relevar as nossas deficiências; o importante é que continuemos cumprindo com os deveres que nos são comuns, dignificando o esforço daqueles que nos inspiram a ser melhores do que somos. A existência física e os exemplos do nosso irmão recém‐desencarnado, nos servirão de material de reflexão para muito tempo; o trabalho que se nos desdobra à frente é gigantesco e não podemos perder tempo com lamentações…

— Estou de acordo, meu amigo — interveio Batuíra —; se algo fizemos sobre a Terra, muito ainda nos compete realizar e, conforme asseverou Léon Denis, na exortação que nos dirigiu ainda há pouco, o futuro nos aguarda e não nos furtaremos à bênção de um novo recomeço. Se não somos o que gostaríamos de ser, pensemos nos milhões de companheiros que, nos Dois Planos da Vida, ignoram completamente as mais rudimentares lições com que a Doutrina já nos favorece. Estamos a queixar‐nos da luz diminuta que nos clareia o caminho, a esquecermos, porém, que ela é do tamanho exato das luzes do nosso próprio entendimento. Se aspiramos a seguir Chico Xavier em sua ascensão aos Páramos Superiores, tratemos de fazer mais e melhor…

— Ora, Batuíra! — pontificou Gonçalves ao estimado Mentor. — Este, sem dúvida, não é o seu caso…

— Por que não? — replicou o lúcido seareiro.

— Acaso terei abdicado da minha condição humana? E você, Cairbar, que nada diz? Em

que estará a pensar?…

— Estou pensando que quase todos nós estivemos próximos do que almejamos, no entanto faltou‐nos coragem e maior desprendimento para o passo decisivo… Não nos doamos por inteiro ao Senhor; algo, que não sei definir, ainda nos prendia ao “eu”… Com certeza, não soubemos responder com ações à célebre indagação do Mestre endereçada aos seus discípulos de todos os tempos: “Que fazeis de especial?”

Meditando por momentos, acentuou:

— Pessoalmente, o que mais me valeu deste Outro Lado foi ter‐me dedicado aos mais pobres; nada, coisa alguma se compara ao nosso envolvimento pessoal na prática do bem… Escrevi muito, publiquei diversos livros, proferi conferências, fundei instituições, enfim, tenho consciência de que cooperei, numa época difícil, com a expansão da Doutrina, mas, em nível de consciência, só me sinto tranquilo quando me ponho a pensar nas lágrimas que enxuguei, nas dores que amenizei e no amor que distribui com os meus semelhantes… Pugnar pela Fé Espírita no mundo é algo que, de certa forma, ainda nos envaidece, porque nos coloca no palanque da evidência e, infelizmente, neste sentido muitos se equivocam, abdicando do trabalho que devem realizar no âmago de si mesmos; a ocupação com a difusão dos nossos princípios, não nos dispensa do esforço intransferível da própria renovação… A pergunta de Jesus aos companheiros deve também nos soar aos ouvidos com o seguinte significado: “Que fazeis de especial em vós para vos tornardes especiais para os outros?” Então, de minha parte, posso dizer‐lhes que nada fiz de especial…

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Estudo, Inácio Ferreira

NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 11

CAPÍTULO 11
Dos muitos amigos e companheiros de ideal presentes à recepção que o Mundo Espiritual organizou para Chico Xavier, este espírito cuja grandeza e valor nem nós, os desenfaixados do corpo denso, saberíamos avaliar, nos deparamos com Sebastião Carmelita, a quem já nos referimos, que se fazia acompanhar de Yvonne Pereira, a inesquecível medianeira de “Memórias de um Suicida”; Cairbar Schutel, o Apóstolo de Matão; e Batuíra, o grande baluarte na Doutrina em São Paulo.

Que os nossos irmãos que, porventura, estejam correndo os olhos por estas linhas, me perdoem a omissão involuntária de muitos nomes, pois impossível seria fornecer-lhes uma relação mais completa daqueles expoentes do Espiritismo que vieram saudar a Chico no limiar da Vida Nova.

Entrando a conversar com os referidos confrades, Carmelita deu início ao diálogo, dirigindo-me a palavra:

– Meu caro Inácio, estou deveras impressionado… Eu não podia imaginar a importância da tarefa confiada ao nosso Chico. Tendo tido a oportunidade de privar com ele em algumas ocasiões, eu o admirava pela generosidade de coração e pela autenticidade de suas faculdades mediúnicas, mas… o seu espírito transcendia a tudo isto; confesso-lhe que não atinei com a sua elevação espiritual…

– Os grandes espíritos, Carmelita — aparteou Odilon —, sabem como se camuflar na carne; se, sem se expor tanto, ele suportou ferrenhas perseguições, pensemos no que seria, caso as trevas tivessem “acordado” antes… Não nos esqueçamos de que, nos últimos três anos, os espíritos que se opõem ao Evangelho tentaram comprometê-lo de todas as formas, mas, então, ele já estava a cavaleiro da trama em que procuraram enredá-lo.

— Você tem razão, Odilon — disse Yvonne Pereira.

— Se, em meu diminuto trabalho na condição de médium, me submeti a terríveis assédios e, várias vezes, cheguei a considerar a possibilidade de me afastar, meditemos no que o Chico terá enfrentado para não esmorecer e, é bom que se diga, de desencarnados e encarnados, de não-espíritas e, principalmente, de espíritas. Infelizmente, sempre fomos os mais exigentes… com os outros e por demais condescendentes conosco. O personalismo talvez seja a maior característica de nossa imperfeição; supomos sermos o que efetivamente não somos e nos conferimos, na Doutrina, uma importância que não temos…

— Yvonne — falou o venerável Batuíra —, combati, em mim, essa tendência personalista a vida inteira… Não é fácil para o espírita administrar as próprias mazelas. Estamos imersos nas sombras por muito tempo e, de repente, a luz: ficamos desnorteados, sem saber o que fazer de nós mesmos e nos tornamos presas indefesas dos espíritos que permaneçam à espreita; não fosse a proteção da Misericórdia Divina, cairíamos freqüentemente… De minha parte, afirmo-lhes que procuro me esquecer no trabalho; envolvia-me com os meus doentes, escrevia os meus artigos, orava diariamente, enfim, procurava dar ocupação às mãos e à mente, pois, caso contrário… As vezes, com o propósito de me defender, chegava a ser ríspido com quem me elogiava:

aquelas palavras melífluas soavam aos meus ouvidos como uma cantilena satânica… Felizmente, pude agüentar-me de pé e não me precipitei no abismo de maiores desilusões; não fiz o que deveria ter feito, mas, pelo menos, não cruzei os braços na ociosidade…

— Compreendo o que o nosso Batuíra quer dizer — asseverou Cairbar. Eu também travei lutas sem tréguas… Em muitas ocasiões, os espíritos obsessores me perturbavam tanto, que quase chegava a enlouquecer; eu os ouvia claramente com as propostas escusas que me dirigiam… Não me poupavam nem quando estava em franca atividade doutrinária. Só experimentava certo distanciamento deles quando estava cuidando dos doentes que me buscavam o concurso fraternal ou, então, na condição de enfermo de alma, eu tomava a iniciativa de procurá-los…

— O que o nosso Chico não terá agüentado, não é mesmo?… — indaguei, refletindo nos problemas que igualmente faceara à frente do Sanatório. Por muito menos que ele, os padres planejavam fazer churrasco de mim; mentiras e calúnias eram todos os dias; diziam que eu estava enriquecendo à custa dos dementes e que, a noite, ia para o hospital promover orgias com os meus pacientes… Eu, pelo menos, ainda os mandava a todos para o Inferno e chegava mesmo a acreditar na existência dele, porque, afinal de contas, tinha que existir um lugar chamado Inferno para receber tanta gente sem escrúpulos… Agora, coitado, o nosso Chico nem desabafar podia!…

— Coitado de mim, Dr. Inácio, assim como do senhor e do nosso Paulino! (perdoem-me incluí-los comigo nesta lista), que, embora fora do corpo, continuamos a nos arrastar como se nele ainda estivéssemos —falou Lilito Chaves, já um tanto refeito da emoção de instantes atrás. — Viu como o Chico subiu e quem veio buscá-lo?… Eu pensei que tivera feito muita coisa, mas a verdade é que nada fiz. Se não fosse o conhecimento da Doutrina, teria feito menos ainda, mas…

— A fórmula — tomou novamente Yvonne a palavra — está em sabermos conciliar o cultivo de nós mesmos, que nos requisita momentos de introspecção, e o trabalho em beneficio dos outros… Uma centração e uma descentração, como nos ensinava Teilhard de Chardin. Não podemos nos isolar e não podemos deixar de nos recolher à nossa própria intimidade; carecemos de imitar o movimento das ondas do mar, que se retraem e, de novo, se lançam à praia, como se estivessem num eterno movimento de expansão.

– Resumindo — interveio Carmelita com liberdade é pegar na charrua e, incansavelmente, lavrar e semear… Em se tratando de caridade, é preferível fazer sem pensar; quem se procura muito em si mesmo acaba se perdendo… Vejamos o exemplo de Chico, que nunca se afastou do convívio com o povo; creio que se ele tivesse, mediunicamente, trabalhado mais recluso, talvez as suas obras tivessem ganhado em profundidade, mas, com certeza, teriam perdido em luz espiritual.

Os livros psicografados por ele tão impregnados estão de luz, que bastará a qualquer um tê-los nas mãos para que comece a se iluminar; de cada página emana uma resplendência divina que esclarece e emociona…

— Ao contrário das obras tão humanizadas de muitos outros medianeiros — asseverou Lilito, pesaroso.

— Mas cada qual faz o que pode — retrucou Odilon.

— Não podemos exigir que todos os médiuns se nívelem a Chico Xavier; seria um contra-senso… Em um pomar, cada árvore frutífera é fadada a produzir de acordo com a sua capacidade: entre frutos da mesma espécie, iremos encontrar diferenças de qualidade… Cabe, a quem vai à feira, escolher o que adquire para lhe atender a fome. Não podemos, Lilito, exigir que os nossos irmãos médiuns se trajem, do ponto de vista moral, de acordo com o figurino que talhamos para eles; não raro, sem perceber, estabelecemos comparações e chegamos a ser cruéis com aqueles medianeiros que não são candidatos a missionários mas, sim, à quitação dos próprios débitos.

A conversa seguia interessante, mas as imediações do velório começavam a se esvaziar; quase todas as luzes que se haviam naturalmente acendido já se haviam apagado e, no ar, permanecia apenas doce fragrância que nos inebriava… Estávamos preparando-nos para retornar às nossas atividades, quando Batuíra, num largo sorriso, saudou o companheiro que se aproximava:

– José Gonçalves Pereira!… Como vai você, meu irmão? Onde é que estava, que eu não pude encontrá-lo antes?…

Inácio Ferreira

NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 10

 CAPÍTULO 10

Passados alguns instantes da alocução proferida por Léon Denis, perfumada aragem começou a soprar, balsamizando o ambiente. De onde será que provinha aquele suave perfume que, aos poucos, se intensificava, impregnando-nos o corpo espiritual? Tínhamos a impressão de que, caindo de Esferas Resplandecentes, aquele orvalho celeste, constituído de diminutos flocos luminosos, antecedia o momento em que o espírito Chico Xavier seria conduzido à ignota região da Vida Sem Fim.
Quando o fenômeno a que tento me referir se fez mais evidente, algumas explosões começaram a ocorrer na extensafaixa de luz azulínea que, agora, ia mudando de tonalidade, como se um arco-íris se estivesse materializando diante dos nossos olhos. Gradativamente, cinco entidades foram se fazendo visíveis para nós, tangibilizando-se no pequeno espaço que me parecia reproduzir produzir a abençoada estrebaria em Belém… Os cinco espíritos, que não posso lhes dizer que tenham assumido forma propriamente humana, foram sendo identificados por nós: eram Bezerra de Menezes, Emmanuel, Eurípedes Barsanulfo, Veneranda e Celina, a excelsa mensageira de Maria de Nazaré.
Diante da estupenda visão, todos sentimos ímpetos de nos ajoelharmos; muitos, efetivamente, se ajoelharam, com os olhos banhados de lágrimas. Bezerra de Menezes, Emmanuel e Eurípedes Barsanulfo estavam, por assim dizer, mais humanizados, no entanto Veneranda e, especialmente, Celina nos pareciam dois anjos alados, falenas divinas que se tivessem metamorfoseado apenas para que pudéssemos vê-las… Eu tinha a impressão de estar participando de um sonho que transcendesse a mais fértil imaginação.
Adiantando-se aos demais companheiros, Veneranda, que o tempo todo pairava no ar, começou a orar com sentimento que a palavra não consegue traduzir:
— Senhor da Vida— exorou, sensibilizando-nos profundamente —, aqui estamos para receber, de volta ao nosso convívio, um dos Vossos servidores mais fiéis que, após quase um século de lutas acerbas pela causa do Vosso Evangelho na Terra, regressa ao Grande Lar, com a consciência do dever cumprido. Que as Vossas bênçãos envolvam o espírito naturalmente exaurido, restituindo-lhe as energias que se consumiram de todo por amor do Vosso Nome entre os homens, nossos irmãos! Que do seu extraordinário esforço não se perca, Mestre, uma única gota de suor, das que se misturaram às lágrimas anônimas vertidas por ele no testemunho da Fé. Que o trabalho de sua proficua existência no corpo físico continue a ser prodigiosa sementeira para as gerações do porvir, apontando o Caminho para quantos anseiam por seguir os Vossos passos…
Senhor, os que tão-somente agora, depois de séculos e século de sombras, nos convencemos da Vossa magnanimidade, vos agradecemos por não terdes consentido que o nosso irmão sucumbisse diante das provas e, em nada, se afastasse da trajetória que lhe traçaste no mundo — sabemos que, nos momentos mais dificeis, sem que nós mesmos pudéssemos perceber, a Vossa mão o sustentava para que não tombasse sob o peso da cruz que lhe pusestes aos ombros… Nós vos louvamos por terdes realizado nele a obra consagrada do Vosso amor, que, um dia, redimirá a Humanidade inteira. E que, agora, ainda unidos ao espírito companheiro que soube transformar-se em exemplo de renúncia e de sacrificio, de desprendimento e de abnegação, possamos dar seqüência à tarefa que iniciastes há dois mil anos, da edificação do Reino de Deus sobre a face da Terra!… Que a claridade sublime das Altas Esferas não nos faça ignorar os vales de sombras dos quais procedemos e nos quais acendestes, para sempre, a Vossa Luz… Que não nos seja lícito o descanso, enquanto o orbe planetário, onde tantas vezes expiamos as nossas faltas, se transfigure em estrela de real grandeza, a fulgir na glória dos mundos redimidos. Abençoai, Senhor, os nossos propósitos que são os Vossos e que, hoje e sempre, possamos exaltar- Vos o Nome através de nossas vidas!…
Terminando de orar, Veneranda e Celína se aproximaram de Cidália, que continuava a aconchegar em seu materno coração o espírito que foi nosso Chico, o qual, de quando a quando, estampava cândido sorriso, como se fosse uma criança participando de um sonho bom do qual jamais ousasse acordar.
O silêncio reinante era de tal ordem, que, aos nossos ouvidos, a voz inarticulada da Natureza nos parecia uma sinfonia; de minha parte, confesso-lhes que eu nunca tinha ouvido a música dos astros e nem podia imaginar que o próprio silêncio tivesse voz.
A faixa de luz azulínea que se transformara num arco-íris ainda se mostrava mais viva, e todos permanecíamos na expectativa do que não sabíamos pudesse acontecer.
Direcionando os sentidos, quis ver, naquela hora, como os preparativos para o féretro estavam desenvolvendo-se no Plano Físico e, justamente, quando começou a ser entoada a canção “Nossa Senhora” e os nossos irmãos começaram a movimentar-se, dando início ao cortejo, uma Luz indescritível, descendo por aquele leque iluminado que ligava a Terra ao Infinito — a faixa de luz que ali se instalara logo após ter sido armado o velório no “Grupo Espírita da Prece” —, uma Luz que, para mim, era muito superior à luz do próprio Sol e que me acionava a memória para a lembrança da visão que Paulo teve do Cristo, às portas de Damasco, repetiu com indefinível ternura:
— “Vinde a mim, todos os que andais em sofrimento e vos achais carregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.
Aquela Extraordinária Visão, que sequer povoava os meus sonhos mais remotos de espírito devedor, estendeu dois braços humanos reluzentes e, quando notei que o Chico em espírito se transferia dos braços de Cidália para aqueles Braços que o atraíam, digo-lhes que, desde quando fui beneficiado com o laurel da razão, não tenho recordação de jamais ter chorado tanto…
Aquela Luz, que se humanizava parcialmente para que pudéssemos vê-la, estreitou Chico Xavier ao peito e depositou-lhe um ósculo santo na fronte e, em seguida, partiu, levando-o consigo, despedindo-se com inesquecível sorriso dos que continuavam presos ao abismo, sentenciados pelo tribunal da consciência culpada.
Foi Odilon que, depois de muito tempo, conseguiu falar, comentando conosco:
— Eu sempre que lia as páginas do Velho Testamento, ficava intrigado e colocava em questão a narrativa de que o profeta Elias fora conduzido ao céu por “um carro de fogo”… Agora sei que não se tratava de força de expressão ou algo semelhante.
Os nossos Lilito Chaves e Paulino Garcia estavam de rostos voltados para o chão e tivemos que levantálos, tentando fazer com que parassem de chorar convulsivamente.
Um grande vazio se fez após e, gradativamente, a faixa de luz foi se recolhendo de baixo para cima, à medida em que o cortejo celestial se retirava.
Quando veríamos Chico Xavier novamente? — era a pergunta que nos fazíamos, através dos olhares que permutávamos. Para onde ele teria sido conduzido?
No entanto, se ignorávamos as respostas às indagações que formulávamos, não pairava entre nós qualquer dúvida de que o espírito glorificado se fizera buscar pelo próprio Cristo.
E, tão desolados quanto os nossos irmãos encarnados haviam ficado, começamos a tentar esboçar algum diálogo.

Inácio Ferreira

NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 9

CAPÍTULO 9

Estávamos todos profundamente emocionados. A multidão, dos Dois Lados da Vida, não parava de crescer e, assim como no Plano Físico, os policiais cuidavam da organização, na Dimensão Espiritual em que nos situávamos, Entidades diversas haviam sido encarregadas de disciplinar a intensa movimentação, sem que nenhum de nós se sentisse encorajado a reclamar qualquer privilégio com o propósito de uma maior aproximação. Quase todos nos conservávamos em atitude de profundo silêncio e de reverência.
Os grupos de espíritos que haviam, ao longo de seus 75 anos de labor, trabalhado com o médium, com exceção, evidentemente, daqueles que já haviam reencarnado, se faziam representar pelos seus maiores expoentes no campo da Poesia e da Literatura. Próximas a Cidália, em cujos braços Chico Xavier descansava, à espera de que o cortejo fúnebre partisse conduzindo os seus restos mortais, notei a presença de algumas entidades femininas que eu não soube identificar.
— Quem são? — perguntei a Odilon, que era um dos poucos dentre nós com plena liberdade de movimentar-se.
– Aquelas quatro primeiras, são as nossas irmãs Meimei, Maria Dolores, Scheilla e Auta de Souza; as demais são corações maternos agradecidos que, em uma ou outra oportunidade, se expressaram pela mediunidade psicográfica do nosso Chico.

– Quem estará na coordenação do evento? — insisti, ansioso por maiores esclarecimentos.
— O Dr. Bezerra de Menezes e Emmanuel, assessorados diretamente por José Xavier — respondeu.
– José Xavier?…
– Sim, o irmão do médium, que está conduzindo um grupo de espíritos amigos de Pedro Leopoldo e região; quando Chico se transferiu para a cidade de Uberaba, em 1959, os seus vínculos afetivos com a sua terra natal não se desfizeram; os espíritas que constituíram o Centro Espírita “Luiz Gonzaga” sempre se sentiram membros de uma única família.
– E aquele casal mais próximo que, de quando a quando, dialoga com Cidália?
— José Hermínio e D. Carmem Perácio; foram eles que iniciaram Chíco Xavier no conhecimento da Doutrina Espírita, doando-lhe exemplares de “O Livro dos Espíritos” e de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”…
Pude perceber, com clareza, que os filamentos perispirituais que uniam o espírito recém-desencarnado ao corpo enrijecido, se enfraqueciam gradualmente; sem dúvida, o médium, assim que se lhe cerraram os olhos físicos, desprendeu-se da forma material, no entanto, devido à necessidade de permanecer durante 48 horas exposto à visitação pública, conforme era seu desejo, exigia que o corpo, de certa forma, continuasse a receber suplementos de princípio vital, evitando-se os constrangimentos da cadaverização. Embora aconchegado aos braços daquela que havia sido na Terra a sua segunda mãe e grande benfeitora, o espírito Chico guardava relativa consciência de tudo…
As expectativas de quase todos, porém, se concentravam sobre aquela faixa de luz azulínea, a qual, àmedida que se abeirava a hora do sepultamento, se intensificava; tínhamos a impressão de que aquele caminho iluminado era a passagem para uma Dimensão Desconhecida, para a qual, com certeza, Chico Xavier haveria de ser conduzido.
Dentro de poucos instantes, o silêncio se fez naturalmente maior e um venerável senhor, ladeado por Irmão José e Herculano Pires, este um dos vultos mais importantes da Doutrina nos últimos tempos, assomou discreta tribuna e começou a falar.
– Quem é? perguntei à meia-voz..
— Léon Denis — respondeu-me Odilon com um sussurro.
— “Meus irmãos — disse o inesquecível discípulo de Allan Kardec —, eis que aqui nos encontramos reunidos, para receber de volta ao nosso convívio, aquele que, uma vez mais, cumpriu exemplarmente a missão que lhe foi confiada pelo Senhor de nossas vidas. Elevemos ao Infinito os nossos pensamentos de gratidão e de reconhecimento, porqüanto sabemos das dificuldades que o espírito que moureja na carne enfrenta para desbravar caminhos à Verdade; o nosso amigo e mestre que, após longa e desgastante peleja, agora retorna àPátria Espiritual, se constituiu num verdadeiro exemplo, não somente para os nossos irmãos encarnados, mas igualmente para os que necessitamos renascer no orbe e, por vezes, nos sentimos desencorajados… De maneira direta ou indireta, cooperamos com ele, para que a Obra que ele próprio encetou, na segunda metade do século dezenove, se desdobrasse na revivescência do Evangelho; a semente espalhada por suas mãos, germinou prodigiosamente, e não apenas no campo da bibliografia espírita, que se enriqueceu sobremodo… Desde o 8 de julho de 1927 e, mais especificamente, o ano de 1932, com a publicação de “Parnaso de Além-Túmulo”, pela Federação Espírita Brasileira, o Movimento Espírita cresceu em progressão geométrica e os grupos doutrinários e assistenciais, que falam da pujança da Terceira Revelação, se multiplicaram em toda parte… Agora, porém, é conosco — enfatizou o grande orador. — Agora somos nós que, no alvorecer do Terceiro Milênio da Era Cristã não mais devemos hesitar em tomar corpo no planeta que, espiritualmente, deverá se elevar conosco. Não tenhamos qualquer receio. Sigamos as pegadas do mestre lionês que soube ocultar a própria grandeza, aceitando a bênção de um novo renascimento quase de imediato àquele que já lhe havia sido, na França, de lutas acerbas para lançar os fundamentos do Espiritismo. Nós, os que, então, não tivemos a coragem de acompanhá-lo na dificil empreitada, devemos sucedê-lo no esforço e na boa vontade, que sempre lhe caracterizaram o apostolado. O mundo não pode mais esperar e, dentro do natural dinamismo da Doutrina, carecemos de cooperar para que a luz da imortalidade que se acendeu entre os homens, não se eclipse nas sombras do materialismo. Com o amor de Jesus no coração, a exemplo do nosso inesquecível Prof. Rivail, triunfaremos. É chegado o instante de nos candidatarmos ao serviço da construção da fé no mundo, cada qual de nós atuando em determinada área do Conhecimento; renunciemos à posição cômoda que desfrutamos, à maneira do general que apenas participa da refrega pelas lentes de um binóculo, sem jamais ousar descer ao campo de batalha…
Promovendo ligeira pausa, o eloqüente tribuno prosseguiu.
– Muitos de nós, os que nos equivocamos nos caminhos do mundo, prevalecemo-nos das faculdades mediúnicas do nosso irmão para, anonimamente por vezes, não nos omitirmos de todo na grande Obra, todavia não mais podemos sonegar as nossas mãos no cultivo de abençoada sementeira da crença e no ideal. Simbolicamente, com o desenlace do Mestre, que viemos saudar em seu regresso triunfal, o esquema traçado pela Espiritualidade Superior e que se colocou em prática, ao longo de mais de sete décadas, agora se desmonta; as tendas espirituais que foram armadas ao seu derredor, se levantam e, para que não nos transformemos em nômades no Além, devemos começar a planejar o nosso retorno à vida fisica, dando seqüência à tarefa que nos era cômodo desempenhar deste Outro Lado da Vida… Eis o alvitre que, um nome Daquele que nos ama desde o princípio, fui encarregado de lhes transmitir, aproveitando o ensejo de estarmos todos reunidos nesta oportunidade. Um ciclo se encerra, mas outro deve começar… Esqueçamos caprichos de ordem pessoal e, embora atrelados à Lei do Carma, que nos reclama o espírito para inevitável resgate, assumamos o compromisso de servir, a exemplo de Allan Kardec, ou Chico Xavier, o iluminado espírito que em duas existências consecutivas, consolidou para a Humanidade os princípios da Fé Raciocinada”.

Estudo, Inácio Ferreira

NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 8

​CAPÍTULO 8

Inúmeras caravanas e representações continuavam chegando, formando extensas filas, que se postavam paralelas às filas organizadas pelos nossos irmãos encarnados, a comparecerem ao velório para render a Chico Xavier merecidas homenagens. Dezenas e dezenas de jovens, coordenados por Augusto César e Jair Presente, dentre outros, formavam grupos especiais que vinham recebê-lo no limiar da Nova Vida, gratos por ter sido ele o seu instrumento de consolo aos familiares na Terra, quando se viram compelidos à desencarnação…

A tarefa de Chico Xavier — explicou Odilon, emocionado — não tem fronteiras; raras vezes, a Espiritualidade conseguiu tamanho êxito no campo do intercâmbio mediúnico… No entanto a força que o sustentava nas dificuldades vinha de Cima, pois, caso contrário, teria sucumbido às pressões daqueles que, encarnados e desencarnados, se opõem ao Evangelho. Chico, por assim dizer, ocultou-se espiritualmente em um corpo franzino e deu início ao seu trabalho, sem que praticamente ninguém lhe desse crédito; quando as trevas o perceberam, cite já havia atravessado a faixa dos vinte de idade e em franco labor, tendo pronto o “Parnaso de Além-Túmulo”, a obra inicial de sua proficua e excelente atividade psicográfica…

— Dr. Odilon — adiantou-se Paulino —, perdoe-me talvez a inoportunidade da pergunta: o senhor crê que Chico Xavier seja a reencarnação de Allan Kardec?

— Não somente creio, Paulino, como tenho elementos para afirmar que ele o é

— respondeu o Mentor, corajosamente. — Os que se dedicarem a estudar o assunto, compulsando, principalmente, a correspondência particular de um e de outro perceberão tratar-se do mesmo espírito. É uma questão que, infelizmente, ainda há de suscitar muita polêmica entre os espíritas que mourejam na carne, mas, para determinado segmento espiritual, no qual eu me incluo, isto é ponto pacifico. São notáveis as “coincidências” ou os pontos de contato entre as duas personalidades, inclusive na semelhança física…

— Alegam alguns, porém, que o Codificador era dono de uma personalidade

austera, ativa, quando a de nosso Chico Xavier é de característica branda, passiva…

— Os que assim se referem não tiveram, evidentemente, oportunidade de privar com o primeiro nem com o segundo — ambos eram austeros e brandos, quando a brandura ou a austeridade se faziam necessárias. É claro que a tarefa que Chico Xavíer desdobrou, no começo do século passado, se deu em condições um tanto diversas da que cumpriu com a identidade de Allan Kardec; o meio não deixa de exercer certa influência sobre a individualidade, constrangendo-a a adaptar-se às novas condições — uma rosa no Brasil será uma rosa, por exemplo, no Japão, no entanto as diferenças climáticas são passíveis de alterar-lhe as características, tanto no que se refere à coloração quanto ao perfume… O espírito é sempre o mesmo, de uma vida para outra, todavia não há, para ele, como livrar-se totalmente da carga genética que o transfigura, mas não desfigura…

Aparteando, o nosso Lilito Chaves considerou:

— Você tem razão, Odilon; às vezes, na condição de espíritas, esperávamos de Chico Xavier atitudes de maior pulso…

O companheiro sorriu e respondeu:

— Lilito, entendo o alcance de sua colocação, mas, convenhamos, se o nosso Chico tivesse sido mais direto em determinadas ocasiões ou adotado uma postura mais enérgica, mormente com aqueles que procuravam com ele uma convivência mais estreita, agora, ao invés de admirá-lo como vencedor, estaríamos a lamentá-lo; o que o fez grande foi justamente a sua capacidade de tolerar, de caminhar a segunda milha a que o Senhor nos conclama, que nós não estamos dispostos a caminhar com os amigos e, muito menos, com os nossos desafetos. Kardec, se era firme na defesa da Doutrina através de seus escritos e pronunciamentos, no trato pessoal era doce e afável, tendo com Mme. Gaby, a esposa, um relacionamento que ia além dos limites do casamento, conforme ainda se concebe em nossa sociedade — mais que marido e mulher, os dois eram qual irmãos e, sendo mais velha do que ele nove anos, ela sentia por Rivail o amor que uma mãe sente pelo filho; antes que Allan Kardec fosse chamado a encetar a obra da Codificação, o casal havia renunciado a qualquer tipo de convivência mais íntima na esfera sexual, para devotar-se aos valores do espírito, e, tanto é assim, que ambos não geraram herdeiros diretos, porqüanto a vontade do Senhor lhes reservara mais alta destinação. Os filhos de Allan Kardec são os filhos da Fé Raciocinada, que se multiplicam na Família Humana…

Neste ínterim, aproximando-se de nós a querida Antusa, médium de cura que cumprira de maneira exemplar a sua tarefa, após nos termos carinhosamente

abraçado, Odilon solicitou que a respeitável irmã opinasse sobre o assunto que

nos ocupava a atenção. Sim, Chico Xavier é a reencarnação de Allan Kardec — disse convicta. Eu sempre o soube, mas, dentro da prova da mudez que me assinalava os dias, nunca pude me expressar com clareza; não polemizo com os confrades valorosos que pensam diferente, no entanto, no meu caso, possuidora, na Terra, da mediunidade de clarividência, várias vezes pude constatar a autenticidade do fato: à minha retina espiritual, Chico se transfigurava e, em seu lugar, surgia a simpática figura do Codificador; também, muitas vezes, em estado de desdobramento, nos instantes em que me era possível deixar o corpo e visitá-lo, eu o encontrava na personalidade marcante de Allan Kardec… A camuflagem espiritual era quase perfeita. É inegável que a obra de um é o complemento da outra: a mesma linha de pensamento, a mesma terminologia, a mesma luz…

– É — atrevi-me a considerar, por minha vez —, com a invasão da França, quando da Segunda Guerra, e as mudanças sociais a que o país, posteriormente, se submeteu, a árvore simbólica do Cristianismo Restaurado consolidou seu transplante no Brasil; seria natural que o pomicultor a tivesse acompanhado…

Digo-lhes que, nos meus tempos de Sanatório, até os obsessores sabiam que Chico era a reencarnação de Allan Kardec; inclusive, um grande amigo nosso, aliás, o único amigo padre que tive na vida, Sebastião Carmelita, sabia ser este mesmo, por revelação mediúnica que o Chico lhe fizera, o Bispo inquisidor que ordenara a incineração dos livros de Allan Kardec, em praça pública, na cidade de Barcelona. Certa feita, visitando-nos no hospital psiquiátrico sob a nossa direção,

Chico confrontou-se com o espírito Tomás de Torquemada, episódio que tive oportunidade de narrar, acanhadamente, em meu livro “Sob as Cinzas do Tempo”… Lembrando-me de outros testemunhos, após pequena pausa, acrescentei:

— A Modesta, que incorporava o espírito Gabriel Delanne e, por vezes, nos ensejava ouvir a palavra de Léon Denis, não escondia a convicção de que o Codificador estava reencarnado e convivendo conosco em Uberaba; Gabriel Delanne, por intermédio de sua faculdade falante, disse-nos com clareza, logo após a mudança de Chico de Pedro Leopoldo para Uberaba, que Allan Kardec se transferira de domicílio e que, por este motivo, eles estavam se transferindo também… É evidente que, quando obtínhamos um comunicado desta natureza, os espíritos nos solicitavam o máximo de sigilo e, por este motivo, não tornávamos pública a revelação; além do mais, não tínhamos provas cabais para oferecer aos Tomés do Espiritismo, os que, negando-se a enxergar com os olhos da razão, querem ver com os olhos físicos o que depois pedem para tocar com as mãos…

Inácio Ferreira

NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 7

​CAPÍTULO 7 

Quando, porém, estávamos de saída para um dos pavilhões do hospital, 

agora sob a minha responsabilidade no Mundo Espiritual, nosso irmão Lilito 

Chaves veio ao nosso encontro e anunciou o que, desde algum tempo, 

aguardávamos com expectativa: a desencarnação do médium Francisco Cândido 

Xavier, o nosso estimado Chico. O acontecimento nos impunha rápidas mudanças 

de planos e, solicitando a Manoel Roberto que cuidasse do interno que me 

reclamava a presença, improvisamos uma excursão à Crosta para saudar aquele 

que, após cumprir com êxito a sua missão, retornava à Pátria de origem. 

Assim, sem maiores delongas, Odilon, Paulino e eu, juntando-nos a uma plêiade 

de companheiros uberabenses desencarnados, entre os quais relaciono o próprio 

Lilito, Antusa, Joaquim Cassiano, Rufina, Adelino de Carvalho, e tantos outros, 

rumamos para Uberaba no começo da noite daquele domingo, dia 30 de junho. A 

caminho, impressionava-nos o número de grupos espirituais, procedentes de 

localidades diversas, do Brasil e do Exterior, que se movimentavam com a mesma 

finalidade. Todos estávamos profundamente emocionados e, mais comovidos 

ficamos quando, estacionando nas vizinhanças do “Grupo Espírita da Prece’, onde 

estava sendo realizado o velório, com o corpo exposto à visitação pública, 

observamos uma faixa de luz resplandecente, que, pairando sobre a humilde casa 

de trabalho do médium, a ligava às Esferas Superiores, às quais não tínhamos 

acesso. 

Conversando conosco, Odilon observou: 

— Embora, evidentemente, já desligado do corpo, nosso Chico, em espírito, ainda 

não se ausentou da atmosfera terrestre; os Benfeitores Espirituais que, durante 75 

anos, com ele serviram à Causa do Evangelho, estarão, com certeza, à espera de 

ordens superiores para conduzi-lo a Região Mais Alta… De nossa parte, 

permaneçamos em oração, buscando reter conosco as lições deste raro momento. 

Aproximando-nos quanto possível, notamos a formação de duas filas imensas, 

constituídas de irmãos encarnados e desencarnados, que reverenciavam o 

companheiro recém-liberto do jugo opressor da matéria: eram espíritos, no corpo e 

fora dele, extremamente gratos a tudo que haviam recebido de suas mãos, a vida 

inteira dedicadas à Caridade, nas mais fiel vivência do “amaivos uns aos outros”. 

Mães e pais que, por ele haviam sido consolados em suas dores; filhos e filhas 

que puderam reatar o diálogo com os genitores saudosos, escrevendo-lhes 

comoventes páginas do Outro Lado da Vida; famílias desvalidas com as quais 

repartira o pão; doentes que confortara agonizantes em seus leitos; religiosos de 

todas as crenças que, respeitosos, lhe agradeciam o esforço sobre-humano em 

prol da fé na imortalidade da alma… 

Não registramos nas imediações, é bom que se diga, um só espírito que 

ousasse se aproximar com intenções infelizes. Os pensamentos de gratidão e as 

preces que lhe eram endereçadas, formavam um halo de luz protetor que tudo 

iluminava num raio de cinco quilômetros; porém essa luz amarelo-brilhante 

contrastava com a faixa de luz azulínea que se perdia entre as estrelas no 

firmamento. 

A cena era grandiosa demais para ser descrita e desafiaria a inspiração do maisexímio gênio da pintura que tentasse retratá-la. Uma música suave, cujos acordes 

eu desconhecia, ecoava entre nós, sem que pudéssemos identificar de onde 

provinha, como se invisível coral de vozes infantis, volitando no espaço, tivesse 

sido treinado para aquela hora. 

Espíritos mais simples que passavam rente comentavam: 

— “Este é um dos últimos… Não sabemos quando a Terra será beneficiada 

novamente por um espírito de tal envergadura”; “Este, de fato, procurava viver o 

que pregava” “Quem nos valerá agora?”; “Durante muitos anos, ele matou a fome 

da minha família… “Lembro-me de que, certa vez, desesperado, com a idéia de 

suicídio na cabeça, eu o procurei e a minha vida mudou”; “Os seus livros me 

inspiraram a ser o que fui, livrando-me de uma existência medíocre”; “Quando 

minha avó morreu, foi ele quem pagou seu enterro, pois, à época, éramos 

totalmente desprovidos de recursos”; “Fundei minha casa espírita sob a orientação 

de Chico Xavier, que recebeu para mim uma mensagem de incentivo e de apoio”; 

“Comigo, foi diferente: eu estava doente, desenganado pela Medicina, ele me 

receitou um remédio de Homeopatia e fiquei bom”… 

Paulino, tão curioso quanto eu e Lilito, perguntou a Odilon: 

— O que o senhor acha dessafaixa de luz isolada, como se fosse um caminho? 

— Desconfio o que seja, mas ainda não tenho certeza, Paulino — respondeu o 

Orientador, que, a todo momento, identificado por um dos integrantes da multidão 

que aumentava progressivamente do nosso lado de ação, se esmerava em 

responder as perguntas que lhe eram dirigidas. 

Os caravaneiros não cessavam de chegar, todos portando flâmulas e faixas com 

dizeres luminosos; creio sinceramente que, em nosso Plano, jamais houve uma 

recepção semelhante a um espírito que tivesse deixado o corpo, após finda a sua 

tarefa no mundo; com exceção do Cristo e de um ou outro luminar da 

Espiritualidade, ninguém houvera feito jus ao aparato espiritual que se organizara 

em torno do desenlace de Chico Xavier. 

Com dificuldade, logrando adentrar o recinto do “Grupo Espírita da Prece”, 

reparamos que uma comissão de nobres espíritos, dispostos em semicírculo, 

todos trajando vestes luminescentes, permanecia, quanto nós mesmos, em 

expectativa. Odilon sussurrou-me ao ouvido: 

— Inácio, estas são as entidades que trabalharam com ele na chamada 

“Coleção de André Luiz”; são os Mentores das obras que o nosso André reportou 

para o mundo, no desdobramento do Pentateuco Kardeciano: 

Clarêncio, Aniceto, Calderaro, Áulus e tantos outros… E aqueles que estão 

imediatamente atrás? — indaguei. 

— São alguns representantes da família do médium e amigos fiéis de longa 

data. 

— E onde estão Emmanuel, nosso Dr. Bezerra de Menezes e Eurípedes 

Barsanulfo? 

Porventura, ainda não chegaram?… 

— Devem estar — respondi — cuidando da organização… 

Ao lado do seu corpo inerte, nosso Chico, segundo a visão que tive, me parecia 

uma criança ressonando, tranqüila, no colo de um anjo transfigurado em mulher, 

fazendo-me recordar, de imediato, a imagem de “Pietà”, a famosa escultura de Michelangelo. 

— Quem é ela? — perguntei. 

— Trata-se de D. Cidália, a sua segunda mãe… 

— E D. Maria João de Deus?… 

— Ao que estou informado — esclareceu Odilon —, encontra-se reencarnada 

no seio da própria família. 

– E seu pai, o Sr. João Cândido? 

— Está em processo de reencarnação, seguindo os passos da primeira esposa. 

Adiantando-se, nosso Lilito indagou: 

— Odilon, na sua opinião, por que o Chico está parecendo uma criança? 

— Ele necessita se refazer, pois o seu desgaste, como não ignoramos, foi muito 

grande, mormente nos últimos anos da vida física; nosso Chico carece de se 

desligar completamente… 

— Perderá, no entanto, a consciência de si? 

– É evidente que não. O seu verdadeiro despertar acontecerá gradativamente, à 

medida em que se recupere da luta sem tréguas que travou… Aliás, a 

Espiritualidade Superior, nos últimos três anos, vinha trabalhando para que a sua 

transição ocorresse sem traumas, tanto para a imensa família espírita, que o 

venera, quanto para ele próprio.

Estudo, Inácio Ferreira

NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 5

CAPÍTULO 5 A  conversa  seguia  mais  descontraída  e  todos  nos  sentíamos  à  vontade  para expormos  os  nossos  pontos  de  vista,  sem  nenhum  constrangimento.  Manoel Roberto  se  recuperara  do  ligeiro  abatimento  e,  a  meu  convite,  passamos  a  uma sala  contígua  onde  poderíamos  dar  seqüência  aquela  reunião  informal… –  Como  é,  Paulino?  —  indagou  Odilon.  —  Confirmou-se  a  tática  que  os  nossos adversários,  ultimamente,  têm  procurado  empregar  contra  nós,  em  nossos contatos  com  os  irmãos  encarnados? –  Sim  —  respondeu  o  simpático  jovem  —,  infelizmente,  não  se  trata  de  uma informação  equivocada;  pudemos  checar  a  veracidade  do  fato  e  é  mais  um problema  que,  doravante,  teremos  que  enfrentar… Curioso,  solicitei  a  Odilon  maiores  esclarecimentos,  pois,  afinal  de  contas,  eu  vivia quase  isolado  entre  os  meus  pacientes,  alheio  ao  que  se  passava  lá  fora. —  Inácio  —  esclareceu  o  confrade,  ante  a  minha  perplexidade  —, inteligências  interessadas  em  manter  o  homem  preso  ao  imediatismo,  no  comando de  vastas  falanges  espirituais,  estão  impedindo  que  os  desencarnados  se aproximem  e  se  manifestem  através  dos  médiuns;  as  comunicações  nas  casas espíritas  têm  escasseado  e  as  que  aconteciam  espontaneamente  fora  dela, prevalecendo-se  da  condição  inconsciente  de  muitos  medianeiros,  diminuíram sensívelmente… —  Como assim? — questionei,  ávido  de  maiores  detalhes. —  Você sabe,  qualquer  comunicação  de  além-túmulo,  sem  que  entremos  aqui no  mérito  de  sua  maior  ou  menor  autenticidade,  induz  o  homem  a  cogitar  de  sua própria  sobrevivência  e,  conseqüentemente,  imprimir  um  novo  rumo  aos  seus passos…  O  intercâmbio  mediúnico  tem  sido  um  manancial  que  sustenta  a  fonte  da crença  —  mesmo  entre  os  que  se  dizem  cépticos,  a  presença  dos  desencarnados que,  diga-se  de  passagem,  não  procuram  apenas  os  médiuns  espíritas  em  sua necessidade  de  contactar  os  homens,  faz  com  que  a  dúvida  se  lhes  insinue  no espírito,  predispondo-os  a  refletir  na  hipótese  na  imortalidade… —  E os inimigos  da Doutrina  estão  agindo?…  —inquiri,  estupefato. —  Vejamos  a  que  extremos  chegaram  —  aduziu  o  Orientador.  —  Estão  se organizando  com  o  propósito  de  impedir  os  médiuns  de  trabalhar  e  as  eventuais comunicações  que  permitem  são  aquelas  passíveis  de  provocar  escândalos,  pelo comprometimento  moral  do  medianeiro…  As  inteligências  desencarnadas  às  quais nos  referimos,  estão  espalhando  o  terror  nas  vias  de  acesso  à  Crosta,  ameaçando com  severas  punições  as  entidades  que  têm  o  hábito  de  se  manifestarem mediunicamente  —  a  maioria  porque,  infelizmente,  ainda  não  conseguiu  se emancipar  completamente  dos  laços  que  a  escraviza  à  Terra,  deixaram  o  corpo, mas  continuam  gravitando  mentalmente  em  torno  de  seus  antigos  interesses… Achar  o  caminho  para  a  Altura  não  é  fácil,  mormente  para  aqueles  que  nunca  se preocuparam  com  a  própria  elevação. — Mas,  Odilon,  o  que  você  está  me  dizendo  é  um  absurdo…  Inacreditável!… — A  coisa,  Inácio,  é  mais  complexa  do  que  parece  à  primeira  vista.  Em  nossas reuniões  mediúnicas,  existem  entidades  que  se  colam  psiquicamente  aos  médiuns e  passam  o  tempo  todo  sem  pronunciar  uma  palavra:  deixam  a  mente  do  médium entorpecida  e  não  consumam  o  transe… Nos  próprios  hospitais  psiquiátricos,  onde  as  manifestações  sempre  foram intensas,  está  imperando  a  lei  do  silêncio.  A  intenção  é  a  de  fazer  crer  que  não existe  vida  depois  da  morte;  o  resto  é  conseqüência…  Não  podendo  calar  os médiuns,  como  outrora  acontecia  nas  fogueiras  inquisitoriais,  estão  calando  ou tentando  calar  os  espíritos.  Por  este  motivo,  temos  observado  que,  no  meio espírita,  os  contatos  mediúnicos  com  entidades  supostamente  mais  esclarecidas têm  se  multiplicado.  Vejamos  o  número  de  livros  assinados  por  novos  autores espirituais… —  Meu  Deus,  como  o  assunto  é  complexo!  —  exclamei,  atinando  para  a gravidade  do  problema. –  Espíritos  que  mentalmente  não  se  submetem,  porque  possuidores  de  certa independência,  furam  obloqueio  e,  encontrando  receptividade  nos  médiuns  à disposição  têm  produzido  obras  literárias  ou  não  que  pouco  acrescentam  ao  corpo doutrinário  e,  além  do  mais,  com  uma  séria  agravante:  a  intensa  produção  de livros  de  qualidade  questionável  sufoca,  no  mercado,  aqueles  que  guardam estreito  vínculo  com  a  Codificação.  Com  o  devido  respeito  que  nos  merecem,  a maioria  dos  medianeiros  em  atividade  ainda  deveria  estar  naquela  fase  de adestramento  de  suas  faculdades.  Antes  de  empunharem  a  caneta  para  escrever, careceriam  de  se  exercitar  na  psicofonia,  no  serviço  de  enfermagem  espiritual junto  às  entidades  sofredoras  do  nosso  Plano. –  Infelizmente,  no  entanto,  a  vaidade  e  o  personalismo,  que  os  espíritos maquiavélicos  sabem  manipular,  têm  lhes  trazido  sérios  prejuízos. — Odilon  —  sabatinei  o  amigo  —,  que  providências  têm  sido  tomadas  por  nós?… Ao  que  estou  informado  pela  História,  a  porta  de  comunicação  com  os  chamados mortos  já  foi  cerrada  mais  de  uma  vez:  Moisés,  com  a  sua  proibição  no Deuteronômio;  quando  o  imperador  Constantino  proclamou  o  Cristianismo  como religião  oficial  do  Estado,  ensej  ando  sua  transformação  em  Catolicismo;  na  Idade Média,  quando  os  sensitivos  eram  considerados  hereges  despoticamente condenados… –  Como,  nos  tempos  modernos,  não  existe  mais  campo  para  cercear  a  liberdade de  pensar  e  de  crer,  embora,  neste  sentido,  ainda  não  tenham  se  extinguido  todos os  focos  de  resistência,  as  inteligências  perversas  que  não  desistem  da hegemonia  planetária  continuam  lutando  e,  ao  que  me  parece,  não  se  encontram dispostas  a  recuar…  Temos  feito  o  possível,  Inácio,  para  sensibilizar  e  alertar  os médiuns  com  os  quais  podemos  contar,  para  que  as  chamas  do  idealismo  não  se transformem  em  cinzas  de  frustração.  A  fogueira  simbólica  que  se  acendeu  entre os  homens,  pelas  luzes  da  Terceira  Revelação,  não  pode  se  apagar,  sob  pena  de mergulharmos  todos  em  trevas  sem  precedentes  na  História  da  Humanidade.  Para fazermos  mais,  porém,  necessitaríamos  contar  com  maior  determinismo  e  boa vontade  da  parte  dos  medianeiros  que,  lamentavelmente,  vêm  se  desvirtuando dos  propósitos  superiores;  estimando  mais  o  aplauso  do  que  o  trabalho,  caem numa  espécie  de  obsessão  serena  que,  de  modo  imperceptível  para  eles, compromete  a  qualidade  de  sua  produção  e  desfigura  os  exemplos  que  são chamados  a  transmitir. —  Hostes  inteiras,  Dr.  Inácio  —  comentou  Paulino  comigo  —,  têm  se movimentado  com  ordens  expressas  de  impedir  que  os  desencarnados  que  vivem nas  imediações  da  Terra  se  comuniquem;  o  cerco  tem  aumentado  e  pairam severas  ameaças  de  punições  sobre  aqueles  que  se  rebelarem… —  Isto  parece  coisa  de  ficção  —  acrescentei;  pasmo.  —  Eu  já  tinha  ouvido falar  de  alguns  espíritas  que  apregoam  um  Espiritismo  sem  espíritos… —  Por  esta  razão,  não  podemos  esmorecer  e,  tanto  quanto  possível, precisamos  insistir  com  os  médiuns  para  que  tomem  maior  consciência  de  suas responsabilidades… —  E com os dirigentes  também,  com  os  responsáveis  pelos  centros  espíritas… —  Certo,  Inácio,  você  está  com  a  razão,  mas  este  é  um  outro  obstáculo  que carece  de  ser  removido,  pois,  quase  sempre,  os  dirigentes  espíritas  não  pensam no  seu  comprometimento  com  a  Causa;  não  podemos  generalizar,  mas  a  falta  de empenho  e  de  ideal  de  certos  dirigentes,  que  centralizam  decisões,  tornam  a  casa espírita  improdutiva  —  vazia  de  tarefas  e,  conseqüentemente,  vazia  de  espíritos operosos  no  bem.  Existem  muitos  espíritas  que,  com  o  dinheiro  dos  outros,  estão construindo  centros  apenas  para  si,  com  a  finalidade  de  terem  um  palco  exclusivo para  as  suas  excentricidades!…

Inácio Ferreira

NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 4

CAPÍTULO 4
—  É curioso  —  acrescentei  —  como  nós,  quando  encarnados,  nos  opomos à  dinâmica  da  Revelação! 
—A  pretexto  de  fidelidade  doutrinária,  oferecemos resistência  às  obras  que  pretendem  dar  seqüência  àquelas  já  consagradas…
—  Na maioria  das  vezes,  Inácio,  tal  acontece  porque  as  obras  às  quais  você  se refere  não  foram  escritas  ou  intermediadas  por  nós.  É  dificil  que  o  homem encarnado  não  oponha  resistência  a  verdade  que  não  seja  anunciada  por  ele… Pausando  por  instantes,  Odilon  ponderou  com  sabedoria:
—  Por  outro  lado,  os  excessos  de  imaginação  carecem  de  ser  evitados;  se  os médiuns  e  os  espíritos  não  encontrassem  resistência  da  parte  dos  que  se  erigem em  patrulheiros  ideológicos  da  Terceira  Revelação,  os  absurdos  doutrinários  ou antidoutrinários  que  produziriam  seriam  muito  maiores…  Como  vemos,  tudo  está certo,  e  a  obra,  quando  traz  a  chancela  da  Verdade,  acaba  se  impondo.  A semente  de  boa  qualidade  germina  entre  espinhos  e  produz  os  frutos  a  que  está destinada. –  Mais  uma  vez,  você  tem  razão 
—  comentei  com  o  amigo  de  excelente bom-senso  e  cuja  experiência  nos  assuntos  relacionados  com  a  mediunidade  eu estava  longe  de  possuir. 
—  De  qualquer  forma,  no  entanto,  me  será  lícito  tentar, não  é?  Ou,  também,  devo  me  sujeitar  a  alguma  espécie  de  censura  deste  Outro Lado  da  Vida?
—  Não  existe,  de  nossa  parte,  restrição  alguma,  Inácio,  mas  você  conhece bem  o nosso  meio,  lá  na  Terra…
—  E como conheço!…  Nos  últimos  tempos,  por  não  suportar  a  convivência  com certos  companheiros  de  ideal,  terminei,  equivocadamente,  me  insulando;  mil vezes  preferível  combater  os  padres  do  que  os  espíritas!  …  Nas  camadas  simples dos  adeptos  do  Espiritismo,  entre  os  servidores  por  assim  dizer,  nos  deparamos com  a  fraternidade  legítima,  mas  nas  cúpulas  diretivas! Qualquer  que  ocupe  um  cargo  de  direção,  vira  a  cabeça  e  passa  a  se  acreditar  um espírito  encarnado  investido  de  elevada  missão…
Odilon  sorriu  e,  quando  íamos  dar  seqüência  ao  assunto  que,  de  certa  forma, ainda  me  incomodava  mesmo  depois  da  morte,  alguém  se  nos  fez  anunciar.  A jovem  atendente  que  trabalhava  comigo,  avisara-me  que  Paulino  Garcia  e  Manoel Roberto haviam chegado e permaneciam à espera. –  Por  favor,  peça  aos  dois  que  entrem… Odilon,  sempre  gentil,  levantou-se  da  poltrona  e  cumprimentou  os  amigos efusivamente.
—  Olá,  Paulino!  Como  vai  passando,  meu  filho?  E  você,  Manoel?  Há  quanto tempo  não  nos  vemos?…
—  É verdade,  Dr.  Odilon,  tenho  andado  um  tanto  ocupado  ultimamente  — respondeu  o  antigo  Enfermeiro  Chefe  do  Sanatório  Espírita  de  Uberaba.
—  Ocupado e preocupado,  não  é,  Manoel?  —aparteei  com  naturalidade. —  O senhor  sabe  como  são  os  assuntos  de  família  —  explicou-se  o  amigo recém-chegado 
—:  a  gente  desencarna,  mas  não  consegue  se  desligar…  A consciência  continua  me  cobrando  um  melhor  desempenho  e  tenho  muito  que fazer  para  tentar  reunir  os  valores  familiares  que  se  dispersaram.  Eu  também  sou um  daqueles  que  não  cumpriram  bem  com  os  deveres  de  casa… –  Não  exagere,  Manoel!  —  retruquei,  com  o  propósito  de  aliviar  o  amigo,  cujo semblante  se  cobrira  de  tristeza. 
—  Você  fez  o  que  pôde.  Eu,  você,  o  Paulino,  o Odilon 
—  todos  fizemos  o  que  pudemos…  Como  se  dar  o  que  não  se  tem?  Se  a terra  não  é  de  boa  qualidade,  não  adianta  semear.  Reaja,  homem!  A reencarnação  está  aí  pela  frente…
—  Mas é justamente  isto  que  me  preocupa: reencarnar  e  repetir  os  mesmos  erros…
—  Calma,  Manoel!  —  foi  a  vez  de  Odilon  falar,  confortando  o  coração  do irmão  que  tanto  fizera  pelo  ideal  que  nos  era  comum.  Não  se  angustie…  Os nossos  familiares  são  os  nossos  analistas  em  profundidade;  se  não  nos sentíssemos  responsáveis  por  eles,  viver  não  seria  assim  tão  complexo  e  nos iludiríamos  quanto  à  nossa  real  capacidade  de  amar…  Aqueles  com  os  quais pouco  convivemos  pouco  nos  conhecem  e  nos  transferem,  de  nós  mesmos,  uma imagem  que  não  corresponde  à  realidade.  Não  fosse  pelo  remorso  que  nos prende  à  retaguarda  afetiva,  junto  aqueles  que  integram  o  nosso  grupo  evolutivo, a  indiferença  seria  a  característica  maior  dos  nossos  sentimentos…  As  vezes, Manoel,  nós  esquecemos  que  pertencemos  a  Deus. —  O senhor  tem  razão  —  disse-lhe  com  os  olhos  marcados. 
—  Eu  preciso  ser mais  forte. Mas  veja  o  senhor:  eu  nada  fiz  que  merecesse  algum  destaque.  Apenas  sempre procurei  cumprir  com  os  meus  deveres  espirituais  e,  no  entanto,  os  meus familiares,  com  uma  ou  outra  exceção,  me  supõem  detentor  de  méritos  que  os dispensam  a  eles  próprios,  do  esforço  individual…
—  Querem, Odilon  — interferi,  indo  direto  ao  assunto  —,  as  credenciais  dele…
—  Mas  isto  de  querer  para  si  o  mérito  alheio  émuito  próprio  do  homem.  Há pessoas  que  vivem  assediando  os  médiuns,  na  crença  de  que  eles  haverão  de  lhe facilitar  o  acesso  às  Regiões  Superiores…
—  Só se  for  às  Regiões  Umbralinas —  atalhei,  indignado,  não  deixando  por menos.
— Muitos  espíritas,  recém-egressos  do  Catolicismo,  estão  querendo  santificar  os médiuns,  e  o  pior  é  que  há  muito  médium  gostando  de  ser  canonizado  em  vida…  É uma  aberração!  A  continuar  assim,  vamos  ter  que  ampliar  as  dimensões  deste hospital…  É  loucura  que  não  acaba  mais.  O  espírita  necessita,  com  urgência,  de se  conscientizar  de  sua  indigência.  Eu  pensava  que,  por  ter  escrito  livros, polemizado  com  os  padres  e  praticado  alguns  atos  de  caridade,  fosse  chegarpor aqui  com  duas  asinhas…  Ledo  engano!  Cheguei  de  rastros  e,  a  rigor,  ainda  não me pus  de  pé… A  descontração  provocada  por  mim  surtira  o  efeito  esperado  e  todos começamos  a  rir. —  E  você,  Paulino,  o  que  tem  a  nos  dizer?  —  perguntou  Odilon,  com  a intenção  de  deixar  o  pupilo  à  vontade.
—  Com relação  à  família,  até  que  não  posso  me  queixar.  O  meu  pai,  a  minha mãe  e  os  meus  irmãos  estão  fazendo  o  que  eu  não  faria…  A  minha  única preocupação  é  a  de  nos  permitirmos  envolver  em  excesso  pelas  coisas  do  mundo e  relegarmos  as  atividades  espirituais  a  plano  secundário;  estamos  indo  bem,  mas ainda  corremos  riscos…
—  Sem dúvida,  perseverar  nas  obras  da  fé  é  um  constante  desafio  para  quem se  encontra  no  corpo  —  observei.
—  A gente  fica  tanto  tempo  sem  fazer  nada,  que,  quando  abre  os  olhos  e percebe  a  extensão  do  serviço,  chega  a  experimentar  um  certo  desânimo  — comentou  Odilon,  que  prosseguiu. 
—  E  passamos  a  cumular  os  outros  de exigências,  reclamando  porque  não  encontramos  cooperação  à  altura,  porque  nos sentimos  sobrecarregados,  porque  a  Doutrina  nos  exorta  a  um  maior desprendimento,  e  ainda  não  sabemos  conciliar  interesses  que,  em  essência,  são inconciliáveis… Efetuando  breve  intervalo,  o  diligente  amigo  que  todos  temos  à  conta  de devotado  Instrutor,  arrematou: — Não importa,  porém…  Hoje  já  estamos  melhores  do  que  ontem,  quando,  então, nos  lamentávamos  de  braços  cruzados,  entregues  à  inércia;  agora,  pelo  menos, num  nível  de  consciência  superior,  nos  atiramos  à  ”fogueira”  e  não  temos  como não  nos  chamuscarmos  em  suas  labaredas…  Este,  de  fato,  é  um  caminho  sem volta!  Com  menor  ou  maior  aproveitamento,  seguiremos  adiante.  Quem  descerra os  olhos  para  a  luz  não  mais  se  contenta  com  as  trevas,  O  nosso  mais  breve contato  com  o  Espiritismo  é  suficiente  para  incomodar-nos  pelo  resto  da  vida!…

Inácio Ferreira

NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 3

CAPÍTULO 3         
  – É verdade, Inácio — respondeu Odilon, com precisão. Neste exato momento, é possível que estejamos rodeados de entidades espirituais, habitantes de outras esferas, não aquelas às quais teremos natural acesso pelas Leis que regem os princípios da evolução; fica dificil traduzir em palavras, mas estou me referindo àqueles seres que povoam Dimensões paralelas à que presentemente habitamos. Por falta de melhor terminologia, digamos que as Esferas Espirituais diferentes como que se imbricam umas dentro das outras; coexistem sem se tocarem — aparentemente, ocupam o mesmo lugar no espaço, o que, pelas leis da Física, conhecidas, seria impossível…           — É fantástico! — exclamei, comovido. — Como o nosso mundinho lá embaixo, diante do que ficamos sabendo além da morte, se torna, em todos os sentidos, ainda mais minúsculo… E nos acreditamos os tais, detentores de conquistas que nos fazem delirar e supor que somos iguais a Deus!…           – A forma humana — continuou o estudioso amigo, no diálogo que me despertava a curiosidade —, em comparação a outras mais aperfeiçoadas, que sequer cabem na nossa imaginação, é por demais primitiva, animalesca mesmo. O espírito, em si, é energia, luz… Assim como as nossas formas de manifestação se quintessenciam, a energia espiritual se eteriza, ao ponto de identificar a criatura com o Criador. Jesus veio do futuro para o passado e o seu espírito careceu de revestir-se dos fluidos grosseiros que nos constituem o corpo espiritual; o Mestre, aproximando-se gradualmente da atmosfera terrestre, foi experimentando sucessivas transfigurações, até naturalmente materializar-se…           – Por este motivo muitos defendem a tese do “corpo fluídico”…           Inconscientemente, sim, Inácio; só que se esquecem de admitir a última fase de semelhante transfiguração — a do corpo carnal; Jesus, mesmo ele, não teria poderes para derrogar as Leis que vigem no Universo para todos os seres, O seu luminoso espírito, que efetuou a sua trajetória evolutiva em outros mundos, fora do nosso Sistema Solar, encarnou sobre a Terra uma única vez e não representou uma farsa, na tarefa que cumpriu… A sua encarnação, com certeza, deve ter lhe custado mais do que a própria crucificação. A sua intimidade com os elementos da Natureza era tamanha, que Ele transformava a água em vinho, multiplicava pães e peixes, regenerava células enfermas nos processos de cura, antevia os acontecimentos, acalmava os ventos e as tempestades e o próprio chão estremecia quando Ele se punha a orar… — Desculpe-me a pergunta, mas como sou novato por aqui… Não disporemos, Odilon, na Dimensão em que nos situamos, veículos que nos possibilitem atravessar fronteiras? Explico-me melhor: na Terra, embora a Ciência ainda esteja engatinhando, dispomos de naves espaciais que, vencendo a gravidade, são destinadas a conduzir-nos aos demais planetas do Sistema. O homem já pisou o solo lunar e prepara-se para uma abordagem a Marte; naves-robôs têm fotografado Júpiter e Saturno… Dentro de mais alguns lustros, é possível, por exemplo, que o homem passe um final de semana num desses orbes — gracejei com o exagero. O que antes permanecia nos domínios da ficção está se tornando realidade…
– –  Eu  sei  aonde  você  pretende  chegar,  Inácio.  Temos,  sim,  pesquisas avançadas  neste  sentido  e  alguns  já  se  encontram  realizando  incursões interdimensionais,  visitando  a  nossa  Dimensão  espiritual  mais  próxima,  sem, éclaro,  que  se  tenham  que  despojar  do  perispírito;  você  sabe  que,  através  do corpo  mental,  podemos,  em  estado  de  desdobramento,  ter  acesso  a  outras esferas… — Não,  eu  não  estou  me  referindo  a  viagens  astrais  ultra-sofisticadas;  quero saber  se,  em  estado  de  lucidez,  nos  seria  possível,  à  semelhança  dos astronautas,  visitar  a  próxima  Dimensão  e  dar  uma  espiadela… —  Espiadela!…  —  exclamou  Odilon,  sorrindo.  —  Gosto  de  conversar  e  estar com  você,  Inácio,  porque  não  me  deixa  esquecer  de  que  ainda  sou  um  homem,  ou seja,  um  ser  humano… Aproveite,  pois,  quando  estiver  mais  bem  ambientado  por  aqui,  talvez  você  venha a  perder  essa  espontaneidade  e,  então,  quando  se  comunicar  com  os  nossos amigos  na  Terra,  muitos  não  serão  capazes  de  identificá-lo. —  Não  mude  de  assunto  —  insisti.  —  É  ou  não  é  possível  tomarmos  uma espécie  de  espaçonave  e  observarmos  a  vida  nas  vizinhanças  do  nosso  presente habitat  espiritual?… —  É claro  que  sim  —  afirmou  sem  rodeios  —,  mas,  com  tanto  a  conhecer  por aqui  mesmo…  O  perímetro  que  abrangemos  é  mais  de  vinte  vezes  o  perímetro planetário;  se  o  homem,  passados  milhões  de  anos,  ainda  não  colonizou  a  Terra toda,  quantos  milênios  gastaremos  para  explorar  as  possibilidades  da  Dimensão em  que vivemos? —  E Jesus Cristo,  onde  está? Não  conseguindo  conter  o  sorriso  que  se  lhe  fez  mais  espontâneo,  o  amigo considerou: — Ora,  Inácio,  não  me  aperte!…  Quem  sou  eu,  para  saber  do  paradeiro  do  Cristo! Estou  tentando  manter  a  consciência  de  mim  mesmo  e,  creia,  isto  já  é  muito. Outra  coisa  que  você,  ainda  neófito  por  estas  bandas,  precisa  saber:  muitas personalidades  famosas  que  inscreveram  o  nome  na  História,  quando  atravessam o  túmulo,  tomam  destino  ignorado  ou,  elas  mesmas,  perdem  gradativamente  a consciência  do  que  foram…  Você  já  imaginou  se,  por  exemplo,  Hitler  ou  Sócrates não  tirassem  da  cabeça  a  lembrança  do  que  representaram  e  representam  para  a Humanidade?  O  espírito  “perde”  a  memória  do  que  foi  e  “guarda”  a  recordação  do que  fez…  É  necessário  que  seja  assim,  pois,  caso  contrário,  não  nos  renovamos. Essas  personagens  passam  a  ser  um  símbolo  para  a  Humanidade  e,  depois,  em favor de si mesmas, desaparecem. –  Mas  eu  ainda  não  esqueci  que  sou  o  Inácio  Ferreira  e  nem  você,  que  é  o Odilon  Fernandes!  —  redargüi. — No nosso  caso  é  diferente,  pois,  por  ora,  o  que  fomos  é  o  único  ponto  de referência  que  possuimos…  No  entanto,  se  não  reencarnarmos  antes, reencarnaremos  —  graças  a  Deus!  —  sem  aquela  fixação  na  personagem  que animamos  e  que  interfere  na  nossa  nova  identidade.  Para  muitos  espíritos,  isto  se constitui  em  um  carma:  querer  esquecer  o  que  foram,  sem  o  lograrem,  no  entanto. —  Retomando  o  tema  anterior  —  disse,  enfático  —,  que  me  parece  mais interessante,  seria  possível,  no  futuro,  nos  candidatarmos  a  uma  viagem interdimensional?…  A  diferença  deste  mundo  em  que  nos  encontramos  com  a a  Terra  é  quase  nada;  sinceramente,  eu  esperava  que  a  morte,  pelo  menos, me ensejasse  maiores  surpresas… —  Você,  certamente,  Inácio,  não  está  considerando  a  experiência  que tivemos,  não  faz  muito,  quando  descemos  às  regiões  trevosas  abaixo  da  Crosta… — Como é que  eu  poderia  me  esquecer?…  —  disse,  arregalando  os  olhos,  ao  me lembrar  dos  episódios  que,  resumidamente,  lhes  dei  a  conhecer  na  obra  “Do  Outro Lado  do  Espelho”.   –  Só  que  é  fácil  de  conceber  o  que  se  passa  no  “Inferno”,  mas  não  o  que  acontece no  “Céu”…  Se  me  fosse  dado,  Odilon,  eu  confesso  a  você  que  gostaria  de  espiar com  estes  olhos  que  a  terra  não  comeu,  o  que  existe  além  das  nossas  fronteiras… –  Quem  sabe,  ainda  possamos,  pelo  menos,  ir  até  ao  limiar  da  próxima Dimensão… –  Eu  teria  vontade  de  descrevê-la  para  os  nossos  irmãos  encarnados… –  Não  acreditarão  em  você;  rotularão  a  sua  obra  de  anti-doutrinária  e  inventarão uma  nova  Santa  Inquisição,  só  para  assarem  o  médium  na  fogueira…

Inácio Ferreira

NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 2

CAPÍTULO 2
—  Limitadíssimos,  Odilon  —  acentuei,  dando  seqüência  ao  diálogo. 
— Confesso-lhe,  com  toda  a  sinceridade,  que  eu  imaginava  que  o  Plano  Espiritual fosse  diferente…
—  Diferente,  Inácio,  é  mais  para  cima…  Não  nos  esqueçamos  de  que  estamos nas  circunvizinhanças  da  Terra.  Você  sabe  que,  na  Natureza,  não  existe  transição brusca;  tudo  obedece  a  um  encadeamento  lógico,  baseado  na  Lei  do  Mérito…
Como,  por  exemplo,  adquirir  asas  nos  ombros,  se  ainda  mal  sabemos  o  que  fazer com  as  pernas?
—  Mas  —  redargüiu  o  valoroso  companheiro  —,  os  espíritas  haverão  de  se decepcionar;  eu  não  sei  a  causa  de,  ao  nos  tornarmos  espíritas,  passarmos  a achar  que  somos  privilegiados… 
A  Doutrina  nos  torna  conscientes  de  nossas enfermidades,  porém  a  tarefa  da  cura  nos  pertence,  pois  a  simples  condição  de adepto  do  Espiritismo  não  isenta  ninguém  de  suas  provas…
—  É, principalmente,  do  esforço  de  renovação…  O  espírita  sincero  é  aquele  que não  recua  diante  das  lutas  que  trava  para  ser  melhor.  Deus  não  cultiva preferencias… 
As  orações  dos  fiéis  de  todas  as  crenças  têm  para  Ele  o  mesmo valor;  às  vezes,  quem  ora  aos  pés  de  um  santo  de  barro  ora  com  maior  fervor  do que  aquele  que  já  libertou  a  fé  de  tantas  formalidades…
—  Como você mudou,  Inácio!  —  brincou  Odilon  comigo. 
—  Eu  diria  tratar-se  de um  espírito…  Se  eu  não  fizer  esta  ressalva,  os  nossos  irmãos  do  mundo  não acreditarão  que  eu  esteja  conversando  com  você,  o  ferrenho  adversário  da  Igreja Católica…
—  Ora,  não  exagere!  Você  sabe  que  eu  apenas  me  defendia,  ou  melhor, procurava  defender  a  Doutrina…  Agora,  no  entanto,  estou  aqui,  às  voltas  com  a própria  realidade…
—  E com muito trabalho  neste  hospital,  não  é?
—  Neste  hospital  onde,  por  incrível  que  pareça,  a  maioria  dos  pacientes  é espírita…  Eu  preferiria  lidar  com  um  louco  espírito  do  que  com  um  espírita  louco… Como  somos,  Odilon,  vaidosos  do  nosso  pequeno  saber! —  Muitos médiuns  internados  aqui? .— O problema  maior  não  são  os  médiuns  que,  na  maioria  das  vezes,  faliram  por falta  de  discernimento;  o  problema  maior  são  os  dirigentes  espíritas,  aqueles  que quiseram  ter  as  rédeas  do  Movimento  nas  mãos  e  impunham  os  seus  pontos  de vista.  Já  os  médiuns  se  assemelham  aos  pecadores  do  Evangelho,  mas  os dirigentes  são  os  doutores  da  lei…
—  Algum  católico  ou  evangélico  por  aqui? —  Poucos.  E  são  os  que  me  dão  menos  trabalho… 
Conforme  lhe  disse,  os espíritas  é  que  estão  mal  arrumados:  conversam  comigo  de  igual  para  igual  e,  não raro,  acabam  invertendo  de  papel  comigo,  ou  seja:  tratam-me  como  se  o  doente fosse  eu… 
Citam  trechos  de  “O  Livro  dos  Espíritos”,  referem-se  ao  Espiritismo científico,  fazem  questão  de  demonstrar  conhecimentos,  no  entanto  já  pude  fazer entre  eles  curiosa  constatação:  quase  todos  foram  espíritas  teóricos;  nunca arregaçaram  as  mangas  numa  atividade  assistencial  que,  ao  contrário,  criticavam veladamente…

Conheci  alguns  deles,  quando  ainda  no  mundo  —  aparteou  o  devotado  amigo. 
— Um  aos  quais  eu  me  refiro  chegou  a  combater  com  veemência  o  nosso  trabalho de  Sopa  Fraterna  na  “Casa  do  Cinza”,  em  Uberaba;  disse-me  que  o  Espiritismo tinha  que  parar  com  aquilo,  que  nós  estávamos  desvirtuando  tudo 
—  o  povo precisava  de  luz,  não  de  pão…
—  Por acaso — indaguei
—, teria  sido  o
—  Ele mesmo,  Inácio  —  respondeu.  Sempre  que  me  via  no  Mercado  Municipal pedindo  verduras  e  legumes  para  a  nossa  Sopa,  eu  tinha  que  ouvir  um  sermão… Coitado!… 
Nem  sei  se  já  desencarnou. —  Ele  é  um  dos  meus  pacientes  aqui,  Odilon,  e,  por  sinal,  é  um  dos  que  mais reivindicam…
— O R., internado  neste  hospital?… –  E  deveria  dar  graças  a  Deus,  pois,  a  rigor,  o  seu  lugar  seria  mais  embaixo… 
Não sei  como  foi  que  conseguiu  chegar  até  aqui. Ele  cuidava  da  mãe,  que  morava  sozinha,  e  não  deixava  que  nada  lhe faltasse… De  fato,  eu  não  sei  o  que  seria  dos  filhos,  se  não  fossem  as  mães  —  comentei, emocionado. 
—  Não  fosse  por  elas,  as  regiões  trevosas  estariam  regurgitando…
—  Mas,  Odilon  —  falei,  com  a  intenção  de  mudar  de  assunto.  E  o  seu trabalho  com  os  médiuns  junto  à  Crosta,  como  é  que  tem  se  desenrolado?
–  Estamos  indo,  Inácio.  Como  você  não  desconhece,  os  progressos  são  lentos 
— tão  lentos,  que,  por  vezes,  nos  parecem  inexistentes,  mas  vamos  caminhando.  A turma  não  quer  estudar  e  assumir  a  tarefa  com  disciplina.  Muitos  começam  e quase  todos  desistem…
–  Querem  colher  antes  de  semear,  não  é?
–  E  semear  antes  de  preparar  o  terreno…
–  Não  é  mesmo  fácil  perseverar,  ainda  mais  no  mundo  de  hoje,  que  mete  medo  em qualquer  candidato  à  reencarnação…
–  Porém  não  existe  alternativa;  se  você  deseja  escalar  a  montanha,  não  adianta ficar  rodeando-a,  concorda?…
E  nem  esperar,  indefinidamente,  melhor  tempo  para  fazê-lo… 
Creio,  Odilon,  que talvez  este  tenha  sido  o  nosso  mérito,  se  é  que  algum  mérito  tivemos:  embora conscientes  de  nossas  imperfeições  e  mazelas,  ousávamos  fazer  o  que  era preciso.
—  Os  médiuns,  Inácio,  acham  que  mediunidade  corre  por  conta  dos espíritos;  quase  nenhum  quer  ser  parceiro  ou  sócio  e  entrar  com  a  parte  que  lhe compete… 
Fazem  uma  série  de  alegações,  quase  todas  sofismas,  para  justificar  a sua  falta  de  empenho  e  melhor  adequação  da  instrumentalidade.
–  O  velho  “fantasma”  da  dúvida…
–  Dúvida  que,  conforme  sabemos,  persistirá  em  cada  um,  até  que  seja definitivamente  afastada  pela  sua  lucidez  espiritual;  é  a  dúvida  que  desafia  o homem  a caminhar… 
A  certeza  é  o  ponto  final  de  jornada  empreendida.
—  Se  o  Espiritismo  pudesse  contar  com  médiuns  mais  conscientes… 
— lamentei.
— Seria  uma  maravilha,  mas  estamos  confiantes  para  o  futuro… 
Tudo  está  certo. Será,  por  outro  lado,  que  se  tivéssemos  sobre  a  Terra  um  número  maior  de medianeiros  convictos  e  responsáveis,  o  excesso  de  luz,  ao  invés  de  lhes  facilitar a  visão  da  Verdade,  não  induziria  os  homens  à  cegueira? 
Sempre  me  intrigou  o fato  de  Jesus  ensinar  por  parábolas;  por  que  o  Mestre  não  falava  claramente?… Quero  crer  que  não  era  por  falta  de  capacidade  pedagógica  ou  por  pobreza  de vocabulário… 
Ele  tencionava  nos  induzir  à  procura,  exercitando  a  nossa capacidade  interpretativa.  A  Humanidade  não  se  redimirá  coletivamente;  a  porta  é estreita  exatamente  para  conceder  passagem  a  um  de  cada  vez…
—  Você,  como  sempre,  tem  razão,  Odilon  —  concordei  com  a  linha  de raciocínio  do  companheiro. 
—  É  possível  que  Moisés,  se  tornasse  a  viver  hoje sobre  a  Terra,  viesse  a  reeditar  a  sua  proibição  dos  homens  se  contactarem  com os  mortos;  queremos  mais,  no  entanto  não  estamos  tão  preparados  assim… —  Aqui  mesmo,  Inácio,  onde  presentemente  nos  situamos  deste  Outro  Lado  da Vida,  não  estamos  preparados  para  saber  o  que  existe  acima  de  nossas cabeças…
—  Você  tocou  num  assunto  que  tem  me  preocupado.  É  verdade,  Odilon,  que existem  Dimensões  Espirituais  paralelas,  ou  seja:  além  daquelas  que naturalmente  se  posicionam  em  níveis  concêntricos,  outras  que,  por  exemplo, coexistem  com  a  nossa,  num  Universo  Espiritual  Paralelo?

Inácio Ferreira, Mensagens enviadas

RECEITA DE ANJO

UM ANJO CHEIO DE REUMATISMO

 

Não, você não precisa esperar pelo Céu para fazer com que lhe cresçam asas de anjo – aliás, no Céu, para onde podem levá-lo, elas não mais terão nenhuma serventia, pois não haverá mais para onde voar além…

O momento de fazer com que as suas asas de anjo comecem a crescer é agora – para sair desse “vale de lágrimas”, que é a Terra, você necessitará delas, já que, de outra maneira, você não conseguirá escalar as escarpas tão escorregadias do escuro abismo em que se encontra arrojado…

Comece, portanto, a cuidar para que, pelo menos, algumas penuginhas delas lhe apareçam – penuginhas luminosas que, preferencialmente, despontam das feridas que possam ser provocadas pelo peso da cruz que você prossegue ombreando…

– A cruz, que tem o formato de uma enxada, ao cavar fundo em seus ombros, faz nascerem asas de anjo! –

Se me permite, vou tomar a liberdade de lhe passar uma receita de “asas de anjo”, que, há muito tempo atrás, me foi dada por uma senhora, que andava pela Terra apoiada a uma bengala – eu jamais suspeitei que, por vezes, um anjo pudesse tomar a forma de uma velhinha carregada de reumatismo – mas pode, pode sim!…

Ela, ou ele, o anjo, que manquitolava, como se me passasse uma receita, pôs-se a me falar:

– Meu filho, se você quiser ser anjo, sem, para tanto, necessitar ir para o Céu, atenda, desde agora, aos seus pequeninos deveres na Terra.

Não fale mal de ninguém.

Faça todo bem que puder.

Não dê ouvidos à maledicência.

Tenha zelo pelos animais.

Cultiva flores – muitas flores.

Ore pelos que lhe perseguem e caluniam.

Exercita a humildade.

Perdoa sempre, sabendo que não guardar mágoa no coração é melhor do que guardar, porque perdoar, de fato, dá muito trabalho.

Não queira ser maior que os outros, pois a verdadeira grandeza está na pequeneza.

A tarefa que ninguém quiser cumprir será sempre aquela que você escolherá para cumprir – a última, a mais obscura, mais penosa e sem reconhecimento e aplauso de quem seja!

E acrescentou sorridente: – A vassoura não é instrumento de voo só para as “bruxas”, não! Valendo-se de uma vassoura, muita gente pode voar da Terra ao Céu!…

Vá varrer o chão, meu filho, sem se esquecer de que, segundo Jesus, foi varrendo o chão que, um dia, uma pobre mulher encontrou a dracma perdida – pequenina moeda que Ele, o nosso Divino Mestre, comparou ao Reino de Deus!

Não se preocupe com os grandes feitos, não, porque os grandes feitos se tornaram grandes a partir daqueles que fizeram com grandeza tudo o que antes era pequeno.

E vou lhe dizer: até que, sem querer, comecem a voar, os anjos não sabem que têm asas! E se elas se fazem invisíveis aos seus próprios portadores, imagine aos demais?! – àqueles que – coitados! – não sabem que foram criados para voar como os pássaros, e não para se arrastarem como os vermes na terra…

Amar é importante – acrescentou. – Não queira ter asas antes disso, porque o Diabo também voa, meu filho! A diferença é que o Diabo voa para baixo, e o anjo voa para cima!…

Vocês devem – curiosos que são – estar querendo saber o nome dessa senhora angelical, que, como alguém que passa uma receita de bolo, passou-me uma receita para ser anjo?! O nome dela não significará muito para vocês, mas vou lhes dizer que ela era minha avó – um anjo cheio de reumatismo e com uma bengala!…

 

INÁCIO FERREIRA

 

Uberaba – MG, 12 de outubro de 2015.

 

Inácio Ferreira, Mensagens enviadas

A PERGUNTA DAS PERGUNTAS

A PERGUNTA DAS PERGUNTAS

 

Pronto.

Você é imortal!

E daí?!

O que pretende fazer com a sua imortalidade?!

Aliás, o que você já está fazendo – porque é de se pressupor que você já esteja fazendo alguma coisa.

Ou será que estará esperando morrer para começar a dar sentido a ela?!

Você não deve esperar transferência para o Mundo Espiritual, porque, afinal, é tudo a mesma coisa…

Vivendo sobre a Terra, você está vivendo num Mundo Espiritual – tudo é uma questão apenas de densidade da matéria.

Ah, e vivendo no Mundo Espiritual, que também é redondo, estará vivendo num planeta semelhante à Terra…

Concorda, ou não?!

Será que estará esperando que as suas asas de anjo cresçam espontaneamente?!

Se estiver, sinto informar-lhe que isto não irá acontecer…

Em nenhum dos Dois Lados da Vida, ou dos Três, ou dos Quatro, ou… de qualquer um dos Infinitos Lados da Vida, isto jamais irá acontecer!

O fato de você ser imortal tem modificado algo em sua vida cotidiana, ou não?!

Continua comendo o seu churrasco, bebendo a sua cerveja, dormindo o seu sono de oito, dez ou doze horas por dia, jogando conversa fora, cuspindo no chão, fazendo as suas intrigas?!…

A sua consciência de que viverá para sempre, de alguma maneira, o tem afligido um pouco mais no que diz respeito à sua própria evolução?! – conseguiu, ou tem conseguido fazer, com que não seja tão acomodado, ou um crente tão descrente?! – “Senhor, eu creio, ajuda a minha incredulidade”!…

Nada contra as suas caminhadas matutinas ou vespertinas, contra o seu Pilates, nem contra a sua musculação – tampouco contra o espelho em que você, imitando Narciso, fica admirando a sua parca beleza, que o tempo, daqui a pouco, reduzirá a um monte de pregas no rosto e noutras partes menos nobres do corpo…

Dance todas as rumbas que você tiver vontade de dançar!

Todavia, já começou a exercitar o desapego?!

Alguns milímetros de renúncia, outros poucos de devotamento ao próximo…

Insisto: o que você está fazendo de sua imortalidade?! Do minuto que passa, está passando e… já passou?!

Não sei, não, mas acho que todo mundo que, verdadeiramente, se crê imortal, não se conforma com esse ramerrão da existência carnal, que é uma espécie de epidemia que acomete os espíritos encarnados, e para qual só o Evangelho sentido e aplicado – na veia! – possui remédio eficaz…

Quantas vezes você bocejou hoje e esfregou os olhos?! Tem certeza de que está acordado?!…

Olhando o relógio sem parar, o que está esperando?! O tempo passar?! A mortechegar?!  Para mudar o quê e a quem?! Mudar a você?! Quem sabe conceder-lhe as virtudes e a sabedoria que você não tem?!…

Escuta, vou lhe contar um caso: se você, antes ou depois da morte, quiser chegar a algum lugar, trate de começar a caminhar, porque o único lugar ao qual, com certeza, chegará sem precisar caminhar é o cemitério – mas, em espírito e verdade, até mesmo de lá, se você quiser sair vai ter que caminhar!…

Pare se sonhar, porque a Vida é colorida, mas não é cor-de-rosa!…

 

INÁCIO FERREIRA

 

Uberaba – MG, 3 de maio de 2015.