Casa do Cinza

"O amor não cogita de recompensa. É um sentimento que se basta." Dr. Odilon Fernandes


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NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 11

CAPÍTULO 11
Dos muitos amigos e companheiros de ideal presentes à recepção que o Mundo Espiritual organizou para Chico Xavier, este espírito cuja grandeza e valor nem nós, os desenfaixados do corpo denso, saberíamos avaliar, nos deparamos com Sebastião Carmelita, a quem já nos referimos, que se fazia acompanhar de Yvonne Pereira, a inesquecível medianeira de “Memórias de um Suicida”; Cairbar Schutel, o Apóstolo de Matão; e Batuíra, o grande baluarte na Doutrina em São Paulo.

Que os nossos irmãos que, porventura, estejam correndo os olhos por estas linhas, me perdoem a omissão involuntária de muitos nomes, pois impossível seria fornecer-lhes uma relação mais completa daqueles expoentes do Espiritismo que vieram saudar a Chico no limiar da Vida Nova.

Entrando a conversar com os referidos confrades, Carmelita deu início ao diálogo, dirigindo-me a palavra:

– Meu caro Inácio, estou deveras impressionado… Eu não podia imaginar a importância da tarefa confiada ao nosso Chico. Tendo tido a oportunidade de privar com ele em algumas ocasiões, eu o admirava pela generosidade de coração e pela autenticidade de suas faculdades mediúnicas, mas… o seu espírito transcendia a tudo isto; confesso-lhe que não atinei com a sua elevação espiritual…

– Os grandes espíritos, Carmelita — aparteou Odilon —, sabem como se camuflar na carne; se, sem se expor tanto, ele suportou ferrenhas perseguições, pensemos no que seria, caso as trevas tivessem “acordado” antes… Não nos esqueçamos de que, nos últimos três anos, os espíritos que se opõem ao Evangelho tentaram comprometê-lo de todas as formas, mas, então, ele já estava a cavaleiro da trama em que procuraram enredá-lo.

— Você tem razão, Odilon — disse Yvonne Pereira.

— Se, em meu diminuto trabalho na condição de médium, me submeti a terríveis assédios e, várias vezes, cheguei a considerar a possibilidade de me afastar, meditemos no que o Chico terá enfrentado para não esmorecer e, é bom que se diga, de desencarnados e encarnados, de não-espíritas e, principalmente, de espíritas. Infelizmente, sempre fomos os mais exigentes… com os outros e por demais condescendentes conosco. O personalismo talvez seja a maior característica de nossa imperfeição; supomos sermos o que efetivamente não somos e nos conferimos, na Doutrina, uma importância que não temos…

— Yvonne — falou o venerável Batuíra —, combati, em mim, essa tendência personalista a vida inteira… Não é fácil para o espírita administrar as próprias mazelas. Estamos imersos nas sombras por muito tempo e, de repente, a luz: ficamos desnorteados, sem saber o que fazer de nós mesmos e nos tornamos presas indefesas dos espíritos que permaneçam à espreita; não fosse a proteção da Misericórdia Divina, cairíamos freqüentemente… De minha parte, afirmo-lhes que procuro me esquecer no trabalho; envolvia-me com os meus doentes, escrevia os meus artigos, orava diariamente, enfim, procurava dar ocupação às mãos e à mente, pois, caso contrário… As vezes, com o propósito de me defender, chegava a ser ríspido com quem me elogiava:

aquelas palavras melífluas soavam aos meus ouvidos como uma cantilena satânica… Felizmente, pude agüentar-me de pé e não me precipitei no abismo de maiores desilusões; não fiz o que deveria ter feito, mas, pelo menos, não cruzei os braços na ociosidade…

— Compreendo o que o nosso Batuíra quer dizer — asseverou Cairbar. Eu também travei lutas sem tréguas… Em muitas ocasiões, os espíritos obsessores me perturbavam tanto, que quase chegava a enlouquecer; eu os ouvia claramente com as propostas escusas que me dirigiam… Não me poupavam nem quando estava em franca atividade doutrinária. Só experimentava certo distanciamento deles quando estava cuidando dos doentes que me buscavam o concurso fraternal ou, então, na condição de enfermo de alma, eu tomava a iniciativa de procurá-los…

— O que o nosso Chico não terá agüentado, não é mesmo?… — indaguei, refletindo nos problemas que igualmente faceara à frente do Sanatório. Por muito menos que ele, os padres planejavam fazer churrasco de mim; mentiras e calúnias eram todos os dias; diziam que eu estava enriquecendo à custa dos dementes e que, a noite, ia para o hospital promover orgias com os meus pacientes… Eu, pelo menos, ainda os mandava a todos para o Inferno e chegava mesmo a acreditar na existência dele, porque, afinal de contas, tinha que existir um lugar chamado Inferno para receber tanta gente sem escrúpulos… Agora, coitado, o nosso Chico nem desabafar podia!…

— Coitado de mim, Dr. Inácio, assim como do senhor e do nosso Paulino! (perdoem-me incluí-los comigo nesta lista), que, embora fora do corpo, continuamos a nos arrastar como se nele ainda estivéssemos —falou Lilito Chaves, já um tanto refeito da emoção de instantes atrás. — Viu como o Chico subiu e quem veio buscá-lo?… Eu pensei que tivera feito muita coisa, mas a verdade é que nada fiz. Se não fosse o conhecimento da Doutrina, teria feito menos ainda, mas…

— A fórmula — tomou novamente Yvonne a palavra — está em sabermos conciliar o cultivo de nós mesmos, que nos requisita momentos de introspecção, e o trabalho em beneficio dos outros… Uma centração e uma descentração, como nos ensinava Teilhard de Chardin. Não podemos nos isolar e não podemos deixar de nos recolher à nossa própria intimidade; carecemos de imitar o movimento das ondas do mar, que se retraem e, de novo, se lançam à praia, como se estivessem num eterno movimento de expansão.

– Resumindo — interveio Carmelita com liberdade é pegar na charrua e, incansavelmente, lavrar e semear… Em se tratando de caridade, é preferível fazer sem pensar; quem se procura muito em si mesmo acaba se perdendo… Vejamos o exemplo de Chico, que nunca se afastou do convívio com o povo; creio que se ele tivesse, mediunicamente, trabalhado mais recluso, talvez as suas obras tivessem ganhado em profundidade, mas, com certeza, teriam perdido em luz espiritual.

Os livros psicografados por ele tão impregnados estão de luz, que bastará a qualquer um tê-los nas mãos para que comece a se iluminar; de cada página emana uma resplendência divina que esclarece e emociona…

— Ao contrário das obras tão humanizadas de muitos outros medianeiros — asseverou Lilito, pesaroso.

— Mas cada qual faz o que pode — retrucou Odilon.

— Não podemos exigir que todos os médiuns se nívelem a Chico Xavier; seria um contra-senso… Em um pomar, cada árvore frutífera é fadada a produzir de acordo com a sua capacidade: entre frutos da mesma espécie, iremos encontrar diferenças de qualidade… Cabe, a quem vai à feira, escolher o que adquire para lhe atender a fome. Não podemos, Lilito, exigir que os nossos irmãos médiuns se trajem, do ponto de vista moral, de acordo com o figurino que talhamos para eles; não raro, sem perceber, estabelecemos comparações e chegamos a ser cruéis com aqueles medianeiros que não são candidatos a missionários mas, sim, à quitação dos próprios débitos.

A conversa seguia interessante, mas as imediações do velório começavam a se esvaziar; quase todas as luzes que se haviam naturalmente acendido já se haviam apagado e, no ar, permanecia apenas doce fragrância que nos inebriava… Estávamos preparando-nos para retornar às nossas atividades, quando Batuíra, num largo sorriso, saudou o companheiro que se aproximava:

– José Gonçalves Pereira!… Como vai você, meu irmão? Onde é que estava, que eu não pude encontrá-lo antes?…


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NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 10

 CAPÍTULO 10

Passados alguns instantes da alocução proferida por Léon Denis, perfumada aragem começou a soprar, balsamizando o ambiente. De onde será que provinha aquele suave perfume que, aos poucos, se intensificava, impregnando-nos o corpo espiritual? Tínhamos a impressão de que, caindo de Esferas Resplandecentes, aquele orvalho celeste, constituído de diminutos flocos luminosos, antecedia o momento em que o espírito Chico Xavier seria conduzido à ignota região da Vida Sem Fim.
Quando o fenômeno a que tento me referir se fez mais evidente, algumas explosões começaram a ocorrer na extensafaixa de luz azulínea que, agora, ia mudando de tonalidade, como se um arco-íris se estivesse materializando diante dos nossos olhos. Gradativamente, cinco entidades foram se fazendo visíveis para nós, tangibilizando-se no pequeno espaço que me parecia reproduzir produzir a abençoada estrebaria em Belém… Os cinco espíritos, que não posso lhes dizer que tenham assumido forma propriamente humana, foram sendo identificados por nós: eram Bezerra de Menezes, Emmanuel, Eurípedes Barsanulfo, Veneranda e Celina, a excelsa mensageira de Maria de Nazaré.
Diante da estupenda visão, todos sentimos ímpetos de nos ajoelharmos; muitos, efetivamente, se ajoelharam, com os olhos banhados de lágrimas. Bezerra de Menezes, Emmanuel e Eurípedes Barsanulfo estavam, por assim dizer, mais humanizados, no entanto Veneranda e, especialmente, Celina nos pareciam dois anjos alados, falenas divinas que se tivessem metamorfoseado apenas para que pudéssemos vê-las… Eu tinha a impressão de estar participando de um sonho que transcendesse a mais fértil imaginação.
Adiantando-se aos demais companheiros, Veneranda, que o tempo todo pairava no ar, começou a orar com sentimento que a palavra não consegue traduzir:
— Senhor da Vida— exorou, sensibilizando-nos profundamente —, aqui estamos para receber, de volta ao nosso convívio, um dos Vossos servidores mais fiéis que, após quase um século de lutas acerbas pela causa do Vosso Evangelho na Terra, regressa ao Grande Lar, com a consciência do dever cumprido. Que as Vossas bênçãos envolvam o espírito naturalmente exaurido, restituindo-lhe as energias que se consumiram de todo por amor do Vosso Nome entre os homens, nossos irmãos! Que do seu extraordinário esforço não se perca, Mestre, uma única gota de suor, das que se misturaram às lágrimas anônimas vertidas por ele no testemunho da Fé. Que o trabalho de sua proficua existência no corpo físico continue a ser prodigiosa sementeira para as gerações do porvir, apontando o Caminho para quantos anseiam por seguir os Vossos passos…
Senhor, os que tão-somente agora, depois de séculos e século de sombras, nos convencemos da Vossa magnanimidade, vos agradecemos por não terdes consentido que o nosso irmão sucumbisse diante das provas e, em nada, se afastasse da trajetória que lhe traçaste no mundo — sabemos que, nos momentos mais dificeis, sem que nós mesmos pudéssemos perceber, a Vossa mão o sustentava para que não tombasse sob o peso da cruz que lhe pusestes aos ombros… Nós vos louvamos por terdes realizado nele a obra consagrada do Vosso amor, que, um dia, redimirá a Humanidade inteira. E que, agora, ainda unidos ao espírito companheiro que soube transformar-se em exemplo de renúncia e de sacrificio, de desprendimento e de abnegação, possamos dar seqüência à tarefa que iniciastes há dois mil anos, da edificação do Reino de Deus sobre a face da Terra!… Que a claridade sublime das Altas Esferas não nos faça ignorar os vales de sombras dos quais procedemos e nos quais acendestes, para sempre, a Vossa Luz… Que não nos seja lícito o descanso, enquanto o orbe planetário, onde tantas vezes expiamos as nossas faltas, se transfigure em estrela de real grandeza, a fulgir na glória dos mundos redimidos. Abençoai, Senhor, os nossos propósitos que são os Vossos e que, hoje e sempre, possamos exaltar- Vos o Nome através de nossas vidas!…
Terminando de orar, Veneranda e Celína se aproximaram de Cidália, que continuava a aconchegar em seu materno coração o espírito que foi nosso Chico, o qual, de quando a quando, estampava cândido sorriso, como se fosse uma criança participando de um sonho bom do qual jamais ousasse acordar.
O silêncio reinante era de tal ordem, que, aos nossos ouvidos, a voz inarticulada da Natureza nos parecia uma sinfonia; de minha parte, confesso-lhes que eu nunca tinha ouvido a música dos astros e nem podia imaginar que o próprio silêncio tivesse voz.
A faixa de luz azulínea que se transformara num arco-íris ainda se mostrava mais viva, e todos permanecíamos na expectativa do que não sabíamos pudesse acontecer.
Direcionando os sentidos, quis ver, naquela hora, como os preparativos para o féretro estavam desenvolvendo-se no Plano Físico e, justamente, quando começou a ser entoada a canção “Nossa Senhora” e os nossos irmãos começaram a movimentar-se, dando início ao cortejo, uma Luz indescritível, descendo por aquele leque iluminado que ligava a Terra ao Infinito — a faixa de luz que ali se instalara logo após ter sido armado o velório no “Grupo Espírita da Prece” —, uma Luz que, para mim, era muito superior à luz do próprio Sol e que me acionava a memória para a lembrança da visão que Paulo teve do Cristo, às portas de Damasco, repetiu com indefinível ternura:
— “Vinde a mim, todos os que andais em sofrimento e vos achais carregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.
Aquela Extraordinária Visão, que sequer povoava os meus sonhos mais remotos de espírito devedor, estendeu dois braços humanos reluzentes e, quando notei que o Chico em espírito se transferia dos braços de Cidália para aqueles Braços que o atraíam, digo-lhes que, desde quando fui beneficiado com o laurel da razão, não tenho recordação de jamais ter chorado tanto…
Aquela Luz, que se humanizava parcialmente para que pudéssemos vê-la, estreitou Chico Xavier ao peito e depositou-lhe um ósculo santo na fronte e, em seguida, partiu, levando-o consigo, despedindo-se com inesquecível sorriso dos que continuavam presos ao abismo, sentenciados pelo tribunal da consciência culpada.
Foi Odilon que, depois de muito tempo, conseguiu falar, comentando conosco:
— Eu sempre que lia as páginas do Velho Testamento, ficava intrigado e colocava em questão a narrativa de que o profeta Elias fora conduzido ao céu por “um carro de fogo”… Agora sei que não se tratava de força de expressão ou algo semelhante.
Os nossos Lilito Chaves e Paulino Garcia estavam de rostos voltados para o chão e tivemos que levantálos, tentando fazer com que parassem de chorar convulsivamente.
Um grande vazio se fez após e, gradativamente, a faixa de luz foi se recolhendo de baixo para cima, à medida em que o cortejo celestial se retirava.
Quando veríamos Chico Xavier novamente? — era a pergunta que nos fazíamos, através dos olhares que permutávamos. Para onde ele teria sido conduzido?
No entanto, se ignorávamos as respostas às indagações que formulávamos, não pairava entre nós qualquer dúvida de que o espírito glorificado se fizera buscar pelo próprio Cristo.
E, tão desolados quanto os nossos irmãos encarnados haviam ficado, começamos a tentar esboçar algum diálogo.


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NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 9

CAPÍTULO 9

Estávamos todos profundamente emocionados. A multidão, dos Dois Lados da Vida, não parava de crescer e, assim como no Plano Físico, os policiais cuidavam da organização, na Dimensão Espiritual em que nos situávamos, Entidades diversas haviam sido encarregadas de disciplinar a intensa movimentação, sem que nenhum de nós se sentisse encorajado a reclamar qualquer privilégio com o propósito de uma maior aproximação. Quase todos nos conservávamos em atitude de profundo silêncio e de reverência.
Os grupos de espíritos que haviam, ao longo de seus 75 anos de labor, trabalhado com o médium, com exceção, evidentemente, daqueles que já haviam reencarnado, se faziam representar pelos seus maiores expoentes no campo da Poesia e da Literatura. Próximas a Cidália, em cujos braços Chico Xavier descansava, à espera de que o cortejo fúnebre partisse conduzindo os seus restos mortais, notei a presença de algumas entidades femininas que eu não soube identificar.
— Quem são? — perguntei a Odilon, que era um dos poucos dentre nós com plena liberdade de movimentar-se.
– Aquelas quatro primeiras, são as nossas irmãs Meimei, Maria Dolores, Scheilla e Auta de Souza; as demais são corações maternos agradecidos que, em uma ou outra oportunidade, se expressaram pela mediunidade psicográfica do nosso Chico.

– Quem estará na coordenação do evento? — insisti, ansioso por maiores esclarecimentos.
— O Dr. Bezerra de Menezes e Emmanuel, assessorados diretamente por José Xavier — respondeu.
– José Xavier?…
– Sim, o irmão do médium, que está conduzindo um grupo de espíritos amigos de Pedro Leopoldo e região; quando Chico se transferiu para a cidade de Uberaba, em 1959, os seus vínculos afetivos com a sua terra natal não se desfizeram; os espíritas que constituíram o Centro Espírita “Luiz Gonzaga” sempre se sentiram membros de uma única família.
– E aquele casal mais próximo que, de quando a quando, dialoga com Cidália?
— José Hermínio e D. Carmem Perácio; foram eles que iniciaram Chíco Xavier no conhecimento da Doutrina Espírita, doando-lhe exemplares de “O Livro dos Espíritos” e de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”…
Pude perceber, com clareza, que os filamentos perispirituais que uniam o espírito recém-desencarnado ao corpo enrijecido, se enfraqueciam gradualmente; sem dúvida, o médium, assim que se lhe cerraram os olhos físicos, desprendeu-se da forma material, no entanto, devido à necessidade de permanecer durante 48 horas exposto à visitação pública, conforme era seu desejo, exigia que o corpo, de certa forma, continuasse a receber suplementos de princípio vital, evitando-se os constrangimentos da cadaverização. Embora aconchegado aos braços daquela que havia sido na Terra a sua segunda mãe e grande benfeitora, o espírito Chico guardava relativa consciência de tudo…
As expectativas de quase todos, porém, se concentravam sobre aquela faixa de luz azulínea, a qual, àmedida que se abeirava a hora do sepultamento, se intensificava; tínhamos a impressão de que aquele caminho iluminado era a passagem para uma Dimensão Desconhecida, para a qual, com certeza, Chico Xavier haveria de ser conduzido.
Dentro de poucos instantes, o silêncio se fez naturalmente maior e um venerável senhor, ladeado por Irmão José e Herculano Pires, este um dos vultos mais importantes da Doutrina nos últimos tempos, assomou discreta tribuna e começou a falar.
– Quem é? perguntei à meia-voz..
— Léon Denis — respondeu-me Odilon com um sussurro.
— “Meus irmãos — disse o inesquecível discípulo de Allan Kardec —, eis que aqui nos encontramos reunidos, para receber de volta ao nosso convívio, aquele que, uma vez mais, cumpriu exemplarmente a missão que lhe foi confiada pelo Senhor de nossas vidas. Elevemos ao Infinito os nossos pensamentos de gratidão e de reconhecimento, porqüanto sabemos das dificuldades que o espírito que moureja na carne enfrenta para desbravar caminhos à Verdade; o nosso amigo e mestre que, após longa e desgastante peleja, agora retorna àPátria Espiritual, se constituiu num verdadeiro exemplo, não somente para os nossos irmãos encarnados, mas igualmente para os que necessitamos renascer no orbe e, por vezes, nos sentimos desencorajados… De maneira direta ou indireta, cooperamos com ele, para que a Obra que ele próprio encetou, na segunda metade do século dezenove, se desdobrasse na revivescência do Evangelho; a semente espalhada por suas mãos, germinou prodigiosamente, e não apenas no campo da bibliografia espírita, que se enriqueceu sobremodo… Desde o 8 de julho de 1927 e, mais especificamente, o ano de 1932, com a publicação de “Parnaso de Além-Túmulo”, pela Federação Espírita Brasileira, o Movimento Espírita cresceu em progressão geométrica e os grupos doutrinários e assistenciais, que falam da pujança da Terceira Revelação, se multiplicaram em toda parte… Agora, porém, é conosco — enfatizou o grande orador. — Agora somos nós que, no alvorecer do Terceiro Milênio da Era Cristã não mais devemos hesitar em tomar corpo no planeta que, espiritualmente, deverá se elevar conosco. Não tenhamos qualquer receio. Sigamos as pegadas do mestre lionês que soube ocultar a própria grandeza, aceitando a bênção de um novo renascimento quase de imediato àquele que já lhe havia sido, na França, de lutas acerbas para lançar os fundamentos do Espiritismo. Nós, os que, então, não tivemos a coragem de acompanhá-lo na dificil empreitada, devemos sucedê-lo no esforço e na boa vontade, que sempre lhe caracterizaram o apostolado. O mundo não pode mais esperar e, dentro do natural dinamismo da Doutrina, carecemos de cooperar para que a luz da imortalidade que se acendeu entre os homens, não se eclipse nas sombras do materialismo. Com o amor de Jesus no coração, a exemplo do nosso inesquecível Prof. Rivail, triunfaremos. É chegado o instante de nos candidatarmos ao serviço da construção da fé no mundo, cada qual de nós atuando em determinada área do Conhecimento; renunciemos à posição cômoda que desfrutamos, à maneira do general que apenas participa da refrega pelas lentes de um binóculo, sem jamais ousar descer ao campo de batalha…
Promovendo ligeira pausa, o eloqüente tribuno prosseguiu.
– Muitos de nós, os que nos equivocamos nos caminhos do mundo, prevalecemo-nos das faculdades mediúnicas do nosso irmão para, anonimamente por vezes, não nos omitirmos de todo na grande Obra, todavia não mais podemos sonegar as nossas mãos no cultivo de abençoada sementeira da crença e no ideal. Simbolicamente, com o desenlace do Mestre, que viemos saudar em seu regresso triunfal, o esquema traçado pela Espiritualidade Superior e que se colocou em prática, ao longo de mais de sete décadas, agora se desmonta; as tendas espirituais que foram armadas ao seu derredor, se levantam e, para que não nos transformemos em nômades no Além, devemos começar a planejar o nosso retorno à vida fisica, dando seqüência à tarefa que nos era cômodo desempenhar deste Outro Lado da Vida… Eis o alvitre que, um nome Daquele que nos ama desde o princípio, fui encarregado de lhes transmitir, aproveitando o ensejo de estarmos todos reunidos nesta oportunidade. Um ciclo se encerra, mas outro deve começar… Esqueçamos caprichos de ordem pessoal e, embora atrelados à Lei do Carma, que nos reclama o espírito para inevitável resgate, assumamos o compromisso de servir, a exemplo de Allan Kardec, ou Chico Xavier, o iluminado espírito que em duas existências consecutivas, consolidou para a Humanidade os princípios da Fé Raciocinada”.


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NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 8

​CAPÍTULO 8 

Inúmeras caravanas e representações continuavam chegando, formando 

extensas filas, que se postavam paralelas às filas organizadas pelos nossos 

irmãos encarnados, a comparecerem ao velório para render a Chico Xavier 

merecidas homenagens. Dezenas e dezenas de jovens, coordenados por Augusto 

César e Jair Presente, dentre outros, formavam grupos especiais que vinham 

recebê-lo no limiar da Nova Vida, gratos por ter sido ele o seu instrumento de 

consolo aos familiares na Terra, quando se viram compelidos à desencarnação… 

A tarefa de Chico Xavier — explicou Odilon, emocionado — não tem fronteiras; 

raras vezes, a Espiritualidade conseguiu tamanho êxito no campo do intercâmbio 

mediúnico… No entanto a força que o sustentava nas dificuldades vinha de Cima, 

pois, caso contrário, teria sucumbido às pressões daqueles que, encarnados e 

desencarnados, se opõem ao Evangelho. Chico, por assim dizer, ocultou-se 

espiritualmente em um corpo franzino e deu início ao seu trabalho, sem que 

praticamente ninguém lhe desse crédito; quando as trevas o perceberam, cite já 

havia atravessado a faixa dos vinte de idade e em franco labor, tendo pronto o 

“Parnaso de Além-Túmulo”, a obra inicial de sua proficua e excelente atividade 

psicográfica… 

— Dr. Odilon — adiantou-se Paulino —, perdoe-me talvez a inoportunidade 

da pergunta: o senhor crê que Chico Xavier seja a reencarnação de Allan Kardec? 

— Não somente creio, Paulino, como tenho elementos para afirmar que ele o é 

— respondeu o Mentor, corajosamente. — Os que se dedicarem a estudar o 

assunto, compulsando, principalmente, a correspondência particular de um e de 

outro perceberão tratar-se do mesmo espírito. É uma questão que, infelizmente, 

ainda há de suscitar muita polêmica entre os espíritas que mourejam na carne, 

mas, para determinado segmento espiritual, no qual eu me incluo, isto é ponto 

pacifico. São notáveis as “coincidências” ou os pontos de contato entre as duas 

personalidades, inclusive na semelhança física… 

— Alegam alguns, porém, que o Codificador era dono de uma personalidade 

austera, ativa, quando a de nosso Chico Xavier é de característica branda, 

passiva… 

— Os que assim se referem não tiveram, evidentemente, oportunidade de privar 

com o primeiro nem com o segundo — ambos eram austeros e brandos, quando a 

brandura ou a austeridade se faziam necessárias. É claro que a tarefa que Chico 

Xavíer desdobrou, no começo do século passado, se deu em condições um tanto 

diversas da que cumpriu com a identidade de Allan Kardec; o meio não deixa de 

exercer certa influência sobre a individualidade, constrangendo-a a adaptar-se às 

novas condições — uma rosa no Brasil será uma rosa, por exemplo, no Japão, no 

entanto as diferenças climáticas são passíveis de alterar-lhe as características, 

tanto no que se refere à coloração quanto ao perfume… O espírito é sempre o 

mesmo, de uma vida para outra, todavia não há, para ele, como livrar-se 

totalmente da carga genética que o transfigura, mas não desfigura… 

Aparteando, o nosso Lilito Chaves considerou: 

— Você tem razão, Odilon; às vezes, na condição de espíritas, esperávamos de 

Chico Xavier atitudes de maior pulso…

O companheiro sorriu e respondeu: 

— Lilito, entendo o alcance de sua colocação, mas, convenhamos, se o nosso 

Chico tivesse sido mais direto em determinadas ocasiões ou adotado uma postura 

mais enérgica, mormente com aqueles que procuravam com ele uma convivência 

mais estreita, agora, ao invés de admirá-lo como vencedor, estaríamos a lamentá-

lo; o que o fez grande foi justamente a sua capacidade de tolerar, de caminhar a 

segunda milha a que o Senhor nos conclama, que nós não estamos dispostos a 

caminhar com os amigos e, muito menos, com os nossos desafetos. Kardec, se 

era firme na defesa da Doutrina através de seus escritos e pronunciamentos, no 

trato pessoal era doce e afável, tendo com Mme. Gaby, a esposa, um 

relacionamento que ia além dos limites do casamento, conforme ainda se concebe 

em nossa sociedade — mais que marido e mulher, os dois eram qual irmãos e, 

sendo mais velha do que ele nove anos, ela sentia por Rivail o amor que uma mãe 

sente pelo filho; antes que Allan Kardec fosse chamado a encetar a obra da 

Codificação, o casal havia renunciado a qualquer tipo de convivência mais íntima 

na esfera sexual, para devotar-se aos valores do espírito, e, tanto é assim, que 

ambos não geraram herdeiros diretos, porqüanto a vontade do Senhor lhes 

reservara mais alta destinação. Os filhos de Allan Kardec são os filhos da Fé 

Raciocinada, que se multiplicam na Família Humana… 

Neste ínterim, aproximando-se de nós a querida Antusa, médium de cura 

que cumprira de maneira exemplar a sua tarefa, após nos termos carinhosamente 

abraçado, Odilon solicitou que a respeitável irmã opinasse sobre o assunto que 

nos ocupava a atenção. 

Sim, Chico Xavier é a reencarnação de Allan Kardec — disse convicta. Eu sempre 

o soube, mas, dentro da prova da mudez que me assinalava os dias, nunca pude 

me expressar com clareza; não polemizo com os confrades valorosos que pensam 

diferente, no entanto, no meu caso, possuidora, na Terra, da mediunidade de 

clarividência, várias vezes pude constatar a autenticidade do fato: à minha retina 

espiritual, Chico se transfigurava e, em seu lugar, surgia a simpática figura do 

Codificador; também, muitas vezes, em estado de desdobramento, nos instantes 

em que me era possível deixar o corpo e visitá-lo, eu o encontrava na 

personalidade marcante de Allan Kardec… A camuflagem espiritual era quase 

perfeita. É inegável que a obra de um é o complemento da outra: a mesma linha 

de pensamento, a mesma terminologia, a mesma luz…

– É — atrevi-me a considerar, por minha vez —, com a invasão da França, quando 

da Segunda Guerra, e as mudanças sociais a que o país, posteriormente, se 

submeteu, a árvore simbólica do Cristianismo Restaurado consolidou seu 

transplante no Brasil; seria natural que o pomicultor a tivesse acompanhado… 

Digo-lhes que, nos meus tempos de Sanatório, até os obsessores sabiam que 

Chico era a reencarnação de Allan Kardec; inclusive, um grande amigo nosso, 

aliás, o único amigo padre que tive na vida, Sebastião Carmelita, sabia ser este 

mesmo, por revelação mediúnica que o Chico lhe fizera, o Bispo inquisidor que 

ordenara a incineração dos livros de Allan Kardec, em praça pública, na cidade de 

Barcelona. Certa feita, visitando-nos no hospital psiquiátrico sob a nossa direção, 

Chico confrontou-se com o espírito Tomás de Torquemada, episódio que tive 

oportunidade de narrar, acanhadamente, em meu livro “Sob as Cinzas do 

Tempo”…

Lembrando-me de outros testemunhos, após pequena pausa, acrescentei: 

— A Modesta, que incorporava o espírito Gabriel Delanne e, por vezes, nos 

ensejava ouvir a palavra de Léon Denis, não escondia a convicção de que o 

Codificador estava reencarnado e convivendo conosco em Uberaba; Gabriel 

Delanne, por intermédio de sua faculdade falante, disse-nos com clareza, logo 

após a mudança de Chico de Pedro Leopoldo para Uberaba, que Allan Kardec se 

transferira de domicílio e que, por este motivo, eles estavam se transferindo 

também… É evidente que, quando obtínhamos um comunicado desta natureza, os 

espíritos nos solicitavam o máximo de sigilo e, por este motivo, não tornávamos 

pública a revelação; além do mais, não tínhamos provas cabais para oferecer aos 

Tomés do Espiritismo, os que, negando-se a enxergar com os olhos da razão, 

querem ver com os olhos físicos o que depois pedem para tocar com as mãos…


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NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 7

​CAPÍTULO 7 

Quando, porém, estávamos de saída para um dos pavilhões do hospital, 

agora sob a minha responsabilidade no Mundo Espiritual, nosso irmão Lilito 

Chaves veio ao nosso encontro e anunciou o que, desde algum tempo, 

aguardávamos com expectativa: a desencarnação do médium Francisco Cândido 

Xavier, o nosso estimado Chico. O acontecimento nos impunha rápidas mudanças 

de planos e, solicitando a Manoel Roberto que cuidasse do interno que me 

reclamava a presença, improvisamos uma excursão à Crosta para saudar aquele 

que, após cumprir com êxito a sua missão, retornava à Pátria de origem. 

Assim, sem maiores delongas, Odilon, Paulino e eu, juntando-nos a uma plêiade 

de companheiros uberabenses desencarnados, entre os quais relaciono o próprio 

Lilito, Antusa, Joaquim Cassiano, Rufina, Adelino de Carvalho, e tantos outros, 

rumamos para Uberaba no começo da noite daquele domingo, dia 30 de junho. A 

caminho, impressionava-nos o número de grupos espirituais, procedentes de 

localidades diversas, do Brasil e do Exterior, que se movimentavam com a mesma 

finalidade. Todos estávamos profundamente emocionados e, mais comovidos 

ficamos quando, estacionando nas vizinhanças do “Grupo Espírita da Prece’, onde 

estava sendo realizado o velório, com o corpo exposto à visitação pública, 

observamos uma faixa de luz resplandecente, que, pairando sobre a humilde casa 

de trabalho do médium, a ligava às Esferas Superiores, às quais não tínhamos 

acesso. 

Conversando conosco, Odilon observou: 

— Embora, evidentemente, já desligado do corpo, nosso Chico, em espírito, ainda 

não se ausentou da atmosfera terrestre; os Benfeitores Espirituais que, durante 75 

anos, com ele serviram à Causa do Evangelho, estarão, com certeza, à espera de 

ordens superiores para conduzi-lo a Região Mais Alta… De nossa parte, 

permaneçamos em oração, buscando reter conosco as lições deste raro momento. 

Aproximando-nos quanto possível, notamos a formação de duas filas imensas, 

constituídas de irmãos encarnados e desencarnados, que reverenciavam o 

companheiro recém-liberto do jugo opressor da matéria: eram espíritos, no corpo e 

fora dele, extremamente gratos a tudo que haviam recebido de suas mãos, a vida 

inteira dedicadas à Caridade, nas mais fiel vivência do “amaivos uns aos outros”. 

Mães e pais que, por ele haviam sido consolados em suas dores; filhos e filhas 

que puderam reatar o diálogo com os genitores saudosos, escrevendo-lhes 

comoventes páginas do Outro Lado da Vida; famílias desvalidas com as quais 

repartira o pão; doentes que confortara agonizantes em seus leitos; religiosos de 

todas as crenças que, respeitosos, lhe agradeciam o esforço sobre-humano em 

prol da fé na imortalidade da alma… 

Não registramos nas imediações, é bom que se diga, um só espírito que 

ousasse se aproximar com intenções infelizes. Os pensamentos de gratidão e as 

preces que lhe eram endereçadas, formavam um halo de luz protetor que tudo 

iluminava num raio de cinco quilômetros; porém essa luz amarelo-brilhante 

contrastava com a faixa de luz azulínea que se perdia entre as estrelas no 

firmamento. 

A cena era grandiosa demais para ser descrita e desafiaria a inspiração do maisexímio gênio da pintura que tentasse retratá-la. Uma música suave, cujos acordes 

eu desconhecia, ecoava entre nós, sem que pudéssemos identificar de onde 

provinha, como se invisível coral de vozes infantis, volitando no espaço, tivesse 

sido treinado para aquela hora. 

Espíritos mais simples que passavam rente comentavam: 

— “Este é um dos últimos… Não sabemos quando a Terra será beneficiada 

novamente por um espírito de tal envergadura”; “Este, de fato, procurava viver o 

que pregava” “Quem nos valerá agora?”; “Durante muitos anos, ele matou a fome 

da minha família… “Lembro-me de que, certa vez, desesperado, com a idéia de 

suicídio na cabeça, eu o procurei e a minha vida mudou”; “Os seus livros me 

inspiraram a ser o que fui, livrando-me de uma existência medíocre”; “Quando 

minha avó morreu, foi ele quem pagou seu enterro, pois, à época, éramos 

totalmente desprovidos de recursos”; “Fundei minha casa espírita sob a orientação 

de Chico Xavier, que recebeu para mim uma mensagem de incentivo e de apoio”; 

“Comigo, foi diferente: eu estava doente, desenganado pela Medicina, ele me 

receitou um remédio de Homeopatia e fiquei bom”… 

Paulino, tão curioso quanto eu e Lilito, perguntou a Odilon: 

— O que o senhor acha dessafaixa de luz isolada, como se fosse um caminho? 

— Desconfio o que seja, mas ainda não tenho certeza, Paulino — respondeu o 

Orientador, que, a todo momento, identificado por um dos integrantes da multidão 

que aumentava progressivamente do nosso lado de ação, se esmerava em 

responder as perguntas que lhe eram dirigidas. 

Os caravaneiros não cessavam de chegar, todos portando flâmulas e faixas com 

dizeres luminosos; creio sinceramente que, em nosso Plano, jamais houve uma 

recepção semelhante a um espírito que tivesse deixado o corpo, após finda a sua 

tarefa no mundo; com exceção do Cristo e de um ou outro luminar da 

Espiritualidade, ninguém houvera feito jus ao aparato espiritual que se organizara 

em torno do desenlace de Chico Xavier. 

Com dificuldade, logrando adentrar o recinto do “Grupo Espírita da Prece”, 

reparamos que uma comissão de nobres espíritos, dispostos em semicírculo, 

todos trajando vestes luminescentes, permanecia, quanto nós mesmos, em 

expectativa. Odilon sussurrou-me ao ouvido: 

— Inácio, estas são as entidades que trabalharam com ele na chamada 

“Coleção de André Luiz”; são os Mentores das obras que o nosso André reportou 

para o mundo, no desdobramento do Pentateuco Kardeciano: 

Clarêncio, Aniceto, Calderaro, Áulus e tantos outros… E aqueles que estão 

imediatamente atrás? — indaguei. 

— São alguns representantes da família do médium e amigos fiéis de longa 

data. 

— E onde estão Emmanuel, nosso Dr. Bezerra de Menezes e Eurípedes 

Barsanulfo? 

Porventura, ainda não chegaram?… 

— Devem estar — respondi — cuidando da organização… 

Ao lado do seu corpo inerte, nosso Chico, segundo a visão que tive, me parecia 

uma criança ressonando, tranqüila, no colo de um anjo transfigurado em mulher, 

fazendo-me recordar, de imediato, a imagem de “Pietà”, a famosa escultura de Michelangelo. 

— Quem é ela? — perguntei. 

— Trata-se de D. Cidália, a sua segunda mãe… 

— E D. Maria João de Deus?… 

— Ao que estou informado — esclareceu Odilon —, encontra-se reencarnada 

no seio da própria família. 

– E seu pai, o Sr. João Cândido? 

— Está em processo de reencarnação, seguindo os passos da primeira esposa. 

Adiantando-se, nosso Lilito indagou: 

— Odilon, na sua opinião, por que o Chico está parecendo uma criança? 

— Ele necessita se refazer, pois o seu desgaste, como não ignoramos, foi muito 

grande, mormente nos últimos anos da vida física; nosso Chico carece de se 

desligar completamente… 

— Perderá, no entanto, a consciência de si? 

– É evidente que não. O seu verdadeiro despertar acontecerá gradativamente, à 

medida em que se recupere da luta sem tréguas que travou… Aliás, a 

Espiritualidade Superior, nos últimos três anos, vinha trabalhando para que a sua 

transição ocorresse sem traumas, tanto para a imensa família espírita, que o 

venera, quanto para ele próprio.


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NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 5

CAPÍTULO 5 A  conversa  seguia  mais  descontraída  e  todos  nos  sentíamos  à  vontade  para expormos  os  nossos  pontos  de  vista,  sem  nenhum  constrangimento.  Manoel Roberto  se  recuperara  do  ligeiro  abatimento  e,  a  meu  convite,  passamos  a  uma sala  contígua  onde  poderíamos  dar  seqüência  aquela  reunião  informal… –  Como  é,  Paulino?  —  indagou  Odilon.  —  Confirmou-se  a  tática  que  os  nossos adversários,  ultimamente,  têm  procurado  empregar  contra  nós,  em  nossos contatos  com  os  irmãos  encarnados? –  Sim  —  respondeu  o  simpático  jovem  —,  infelizmente,  não  se  trata  de  uma informação  equivocada;  pudemos  checar  a  veracidade  do  fato  e  é  mais  um problema  que,  doravante,  teremos  que  enfrentar… Curioso,  solicitei  a  Odilon  maiores  esclarecimentos,  pois,  afinal  de  contas,  eu  vivia quase  isolado  entre  os  meus  pacientes,  alheio  ao  que  se  passava  lá  fora. —  Inácio  —  esclareceu  o  confrade,  ante  a  minha  perplexidade  —, inteligências  interessadas  em  manter  o  homem  preso  ao  imediatismo,  no  comando de  vastas  falanges  espirituais,  estão  impedindo  que  os  desencarnados  se aproximem  e  se  manifestem  através  dos  médiuns;  as  comunicações  nas  casas espíritas  têm  escasseado  e  as  que  aconteciam  espontaneamente  fora  dela, prevalecendo-se  da  condição  inconsciente  de  muitos  medianeiros,  diminuíram sensívelmente… —  Como assim? — questionei,  ávido  de  maiores  detalhes. —  Você sabe,  qualquer  comunicação  de  além-túmulo,  sem  que  entremos  aqui no  mérito  de  sua  maior  ou  menor  autenticidade,  induz  o  homem  a  cogitar  de  sua própria  sobrevivência  e,  conseqüentemente,  imprimir  um  novo  rumo  aos  seus passos…  O  intercâmbio  mediúnico  tem  sido  um  manancial  que  sustenta  a  fonte  da crença  —  mesmo  entre  os  que  se  dizem  cépticos,  a  presença  dos  desencarnados que,  diga-se  de  passagem,  não  procuram  apenas  os  médiuns  espíritas  em  sua necessidade  de  contactar  os  homens,  faz  com  que  a  dúvida  se  lhes  insinue  no espírito,  predispondo-os  a  refletir  na  hipótese  na  imortalidade… —  E os inimigos  da Doutrina  estão  agindo?…  —inquiri,  estupefato. —  Vejamos  a  que  extremos  chegaram  —  aduziu  o  Orientador.  —  Estão  se organizando  com  o  propósito  de  impedir  os  médiuns  de  trabalhar  e  as  eventuais comunicações  que  permitem  são  aquelas  passíveis  de  provocar  escândalos,  pelo comprometimento  moral  do  medianeiro…  As  inteligências  desencarnadas  às  quais nos  referimos,  estão  espalhando  o  terror  nas  vias  de  acesso  à  Crosta,  ameaçando com  severas  punições  as  entidades  que  têm  o  hábito  de  se  manifestarem mediunicamente  —  a  maioria  porque,  infelizmente,  ainda  não  conseguiu  se emancipar  completamente  dos  laços  que  a  escraviza  à  Terra,  deixaram  o  corpo, mas  continuam  gravitando  mentalmente  em  torno  de  seus  antigos  interesses… Achar  o  caminho  para  a  Altura  não  é  fácil,  mormente  para  aqueles  que  nunca  se preocuparam  com  a  própria  elevação. — Mas,  Odilon,  o  que  você  está  me  dizendo  é  um  absurdo…  Inacreditável!… — A  coisa,  Inácio,  é  mais  complexa  do  que  parece  à  primeira  vista.  Em  nossas reuniões  mediúnicas,  existem  entidades  que  se  colam  psiquicamente  aos  médiuns e  passam  o  tempo  todo  sem  pronunciar  uma  palavra:  deixam  a  mente  do  médium entorpecida  e  não  consumam  o  transe… Nos  próprios  hospitais  psiquiátricos,  onde  as  manifestações  sempre  foram intensas,  está  imperando  a  lei  do  silêncio.  A  intenção  é  a  de  fazer  crer  que  não existe  vida  depois  da  morte;  o  resto  é  conseqüência…  Não  podendo  calar  os médiuns,  como  outrora  acontecia  nas  fogueiras  inquisitoriais,  estão  calando  ou tentando  calar  os  espíritos.  Por  este  motivo,  temos  observado  que,  no  meio espírita,  os  contatos  mediúnicos  com  entidades  supostamente  mais  esclarecidas têm  se  multiplicado.  Vejamos  o  número  de  livros  assinados  por  novos  autores espirituais… —  Meu  Deus,  como  o  assunto  é  complexo!  —  exclamei,  atinando  para  a gravidade  do  problema. –  Espíritos  que  mentalmente  não  se  submetem,  porque  possuidores  de  certa independência,  furam  obloqueio  e,  encontrando  receptividade  nos  médiuns  à disposição  têm  produzido  obras  literárias  ou  não  que  pouco  acrescentam  ao  corpo doutrinário  e,  além  do  mais,  com  uma  séria  agravante:  a  intensa  produção  de livros  de  qualidade  questionável  sufoca,  no  mercado,  aqueles  que  guardam estreito  vínculo  com  a  Codificação.  Com  o  devido  respeito  que  nos  merecem,  a maioria  dos  medianeiros  em  atividade  ainda  deveria  estar  naquela  fase  de adestramento  de  suas  faculdades.  Antes  de  empunharem  a  caneta  para  escrever, careceriam  de  se  exercitar  na  psicofonia,  no  serviço  de  enfermagem  espiritual junto  às  entidades  sofredoras  do  nosso  Plano. –  Infelizmente,  no  entanto,  a  vaidade  e  o  personalismo,  que  os  espíritos maquiavélicos  sabem  manipular,  têm  lhes  trazido  sérios  prejuízos. — Odilon  —  sabatinei  o  amigo  —,  que  providências  têm  sido  tomadas  por  nós?… Ao  que  estou  informado  pela  História,  a  porta  de  comunicação  com  os  chamados mortos  já  foi  cerrada  mais  de  uma  vez:  Moisés,  com  a  sua  proibição  no Deuteronômio;  quando  o  imperador  Constantino  proclamou  o  Cristianismo  como religião  oficial  do  Estado,  ensej  ando  sua  transformação  em  Catolicismo;  na  Idade Média,  quando  os  sensitivos  eram  considerados  hereges  despoticamente condenados… –  Como,  nos  tempos  modernos,  não  existe  mais  campo  para  cercear  a  liberdade de  pensar  e  de  crer,  embora,  neste  sentido,  ainda  não  tenham  se  extinguido  todos os  focos  de  resistência,  as  inteligências  perversas  que  não  desistem  da hegemonia  planetária  continuam  lutando  e,  ao  que  me  parece,  não  se  encontram dispostas  a  recuar…  Temos  feito  o  possível,  Inácio,  para  sensibilizar  e  alertar  os médiuns  com  os  quais  podemos  contar,  para  que  as  chamas  do  idealismo  não  se transformem  em  cinzas  de  frustração.  A  fogueira  simbólica  que  se  acendeu  entre os  homens,  pelas  luzes  da  Terceira  Revelação,  não  pode  se  apagar,  sob  pena  de mergulharmos  todos  em  trevas  sem  precedentes  na  História  da  Humanidade.  Para fazermos  mais,  porém,  necessitaríamos  contar  com  maior  determinismo  e  boa vontade  da  parte  dos  medianeiros  que,  lamentavelmente,  vêm  se  desvirtuando dos  propósitos  superiores;  estimando  mais  o  aplauso  do  que  o  trabalho,  caem numa  espécie  de  obsessão  serena  que,  de  modo  imperceptível  para  eles, compromete  a  qualidade  de  sua  produção  e  desfigura  os  exemplos  que  são chamados  a  transmitir. —  Hostes  inteiras,  Dr.  Inácio  —  comentou  Paulino  comigo  —,  têm  se movimentado  com  ordens  expressas  de  impedir  que  os  desencarnados  que  vivem nas  imediações  da  Terra  se  comuniquem;  o  cerco  tem  aumentado  e  pairam severas  ameaças  de  punições  sobre  aqueles  que  se  rebelarem… —  Isto  parece  coisa  de  ficção  —  acrescentei;  pasmo.  —  Eu  já  tinha  ouvido falar  de  alguns  espíritas  que  apregoam  um  Espiritismo  sem  espíritos… —  Por  esta  razão,  não  podemos  esmorecer  e,  tanto  quanto  possível, precisamos  insistir  com  os  médiuns  para  que  tomem  maior  consciência  de  suas responsabilidades… —  E com os dirigentes  também,  com  os  responsáveis  pelos  centros  espíritas… —  Certo,  Inácio,  você  está  com  a  razão,  mas  este  é  um  outro  obstáculo  que carece  de  ser  removido,  pois,  quase  sempre,  os  dirigentes  espíritas  não  pensam no  seu  comprometimento  com  a  Causa;  não  podemos  generalizar,  mas  a  falta  de empenho  e  de  ideal  de  certos  dirigentes,  que  centralizam  decisões,  tornam  a  casa espírita  improdutiva  —  vazia  de  tarefas  e,  conseqüentemente,  vazia  de  espíritos operosos  no  bem.  Existem  muitos  espíritas  que,  com  o  dinheiro  dos  outros,  estão construindo  centros  apenas  para  si,  com  a  finalidade  de  terem  um  palco  exclusivo para  as  suas  excentricidades!…


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NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 4

CAPÍTULO 4
—  É curioso  —  acrescentei  —  como  nós,  quando  encarnados,  nos  opomos à  dinâmica  da  Revelação! 
—A  pretexto  de  fidelidade  doutrinária,  oferecemos resistência  às  obras  que  pretendem  dar  seqüência  àquelas  já  consagradas…
—  Na maioria  das  vezes,  Inácio,  tal  acontece  porque  as  obras  às  quais  você  se refere  não  foram  escritas  ou  intermediadas  por  nós.  É  dificil  que  o  homem encarnado  não  oponha  resistência  a  verdade  que  não  seja  anunciada  por  ele… Pausando  por  instantes,  Odilon  ponderou  com  sabedoria:
—  Por  outro  lado,  os  excessos  de  imaginação  carecem  de  ser  evitados;  se  os médiuns  e  os  espíritos  não  encontrassem  resistência  da  parte  dos  que  se  erigem em  patrulheiros  ideológicos  da  Terceira  Revelação,  os  absurdos  doutrinários  ou antidoutrinários  que  produziriam  seriam  muito  maiores…  Como  vemos,  tudo  está certo,  e  a  obra,  quando  traz  a  chancela  da  Verdade,  acaba  se  impondo.  A semente  de  boa  qualidade  germina  entre  espinhos  e  produz  os  frutos  a  que  está destinada. –  Mais  uma  vez,  você  tem  razão 
—  comentei  com  o  amigo  de  excelente bom-senso  e  cuja  experiência  nos  assuntos  relacionados  com  a  mediunidade  eu estava  longe  de  possuir. 
—  De  qualquer  forma,  no  entanto,  me  será  lícito  tentar, não  é?  Ou,  também,  devo  me  sujeitar  a  alguma  espécie  de  censura  deste  Outro Lado  da  Vida?
—  Não  existe,  de  nossa  parte,  restrição  alguma,  Inácio,  mas  você  conhece bem  o nosso  meio,  lá  na  Terra…
—  E como conheço!…  Nos  últimos  tempos,  por  não  suportar  a  convivência  com certos  companheiros  de  ideal,  terminei,  equivocadamente,  me  insulando;  mil vezes  preferível  combater  os  padres  do  que  os  espíritas!  …  Nas  camadas  simples dos  adeptos  do  Espiritismo,  entre  os  servidores  por  assim  dizer,  nos  deparamos com  a  fraternidade  legítima,  mas  nas  cúpulas  diretivas! Qualquer  que  ocupe  um  cargo  de  direção,  vira  a  cabeça  e  passa  a  se  acreditar  um espírito  encarnado  investido  de  elevada  missão…
Odilon  sorriu  e,  quando  íamos  dar  seqüência  ao  assunto  que,  de  certa  forma, ainda  me  incomodava  mesmo  depois  da  morte,  alguém  se  nos  fez  anunciar.  A jovem  atendente  que  trabalhava  comigo,  avisara-me  que  Paulino  Garcia  e  Manoel Roberto haviam chegado e permaneciam à espera. –  Por  favor,  peça  aos  dois  que  entrem… Odilon,  sempre  gentil,  levantou-se  da  poltrona  e  cumprimentou  os  amigos efusivamente.
—  Olá,  Paulino!  Como  vai  passando,  meu  filho?  E  você,  Manoel?  Há  quanto tempo  não  nos  vemos?…
—  É verdade,  Dr.  Odilon,  tenho  andado  um  tanto  ocupado  ultimamente  — respondeu  o  antigo  Enfermeiro  Chefe  do  Sanatório  Espírita  de  Uberaba.
—  Ocupado e preocupado,  não  é,  Manoel?  —aparteei  com  naturalidade. —  O senhor  sabe  como  são  os  assuntos  de  família  —  explicou-se  o  amigo recém-chegado 
—:  a  gente  desencarna,  mas  não  consegue  se  desligar…  A consciência  continua  me  cobrando  um  melhor  desempenho  e  tenho  muito  que fazer  para  tentar  reunir  os  valores  familiares  que  se  dispersaram.  Eu  também  sou um  daqueles  que  não  cumpriram  bem  com  os  deveres  de  casa… –  Não  exagere,  Manoel!  —  retruquei,  com  o  propósito  de  aliviar  o  amigo,  cujo semblante  se  cobrira  de  tristeza. 
—  Você  fez  o  que  pôde.  Eu,  você,  o  Paulino,  o Odilon 
—  todos  fizemos  o  que  pudemos…  Como  se  dar  o  que  não  se  tem?  Se  a terra  não  é  de  boa  qualidade,  não  adianta  semear.  Reaja,  homem!  A reencarnação  está  aí  pela  frente…
—  Mas é justamente  isto  que  me  preocupa: reencarnar  e  repetir  os  mesmos  erros…
—  Calma,  Manoel!  —  foi  a  vez  de  Odilon  falar,  confortando  o  coração  do irmão  que  tanto  fizera  pelo  ideal  que  nos  era  comum.  Não  se  angustie…  Os nossos  familiares  são  os  nossos  analistas  em  profundidade;  se  não  nos sentíssemos  responsáveis  por  eles,  viver  não  seria  assim  tão  complexo  e  nos iludiríamos  quanto  à  nossa  real  capacidade  de  amar…  Aqueles  com  os  quais pouco  convivemos  pouco  nos  conhecem  e  nos  transferem,  de  nós  mesmos,  uma imagem  que  não  corresponde  à  realidade.  Não  fosse  pelo  remorso  que  nos prende  à  retaguarda  afetiva,  junto  aqueles  que  integram  o  nosso  grupo  evolutivo, a  indiferença  seria  a  característica  maior  dos  nossos  sentimentos…  As  vezes, Manoel,  nós  esquecemos  que  pertencemos  a  Deus. —  O senhor  tem  razão  —  disse-lhe  com  os  olhos  marcados. 
—  Eu  preciso  ser mais  forte. Mas  veja  o  senhor:  eu  nada  fiz  que  merecesse  algum  destaque.  Apenas  sempre procurei  cumprir  com  os  meus  deveres  espirituais  e,  no  entanto,  os  meus familiares,  com  uma  ou  outra  exceção,  me  supõem  detentor  de  méritos  que  os dispensam  a  eles  próprios,  do  esforço  individual…
—  Querem, Odilon  — interferi,  indo  direto  ao  assunto  —,  as  credenciais  dele…
—  Mas  isto  de  querer  para  si  o  mérito  alheio  émuito  próprio  do  homem.  Há pessoas  que  vivem  assediando  os  médiuns,  na  crença  de  que  eles  haverão  de  lhe facilitar  o  acesso  às  Regiões  Superiores…
—  Só se  for  às  Regiões  Umbralinas —  atalhei,  indignado,  não  deixando  por menos.
— Muitos  espíritas,  recém-egressos  do  Catolicismo,  estão  querendo  santificar  os médiuns,  e  o  pior  é  que  há  muito  médium  gostando  de  ser  canonizado  em  vida…  É uma  aberração!  A  continuar  assim,  vamos  ter  que  ampliar  as  dimensões  deste hospital…  É  loucura  que  não  acaba  mais.  O  espírita  necessita,  com  urgência,  de se  conscientizar  de  sua  indigência.  Eu  pensava  que,  por  ter  escrito  livros, polemizado  com  os  padres  e  praticado  alguns  atos  de  caridade,  fosse  chegarpor aqui  com  duas  asinhas…  Ledo  engano!  Cheguei  de  rastros  e,  a  rigor,  ainda  não me pus  de  pé… A  descontração  provocada  por  mim  surtira  o  efeito  esperado  e  todos começamos  a  rir. —  E  você,  Paulino,  o  que  tem  a  nos  dizer?  —  perguntou  Odilon,  com  a intenção  de  deixar  o  pupilo  à  vontade.
—  Com relação  à  família,  até  que  não  posso  me  queixar.  O  meu  pai,  a  minha mãe  e  os  meus  irmãos  estão  fazendo  o  que  eu  não  faria…  A  minha  única preocupação  é  a  de  nos  permitirmos  envolver  em  excesso  pelas  coisas  do  mundo e  relegarmos  as  atividades  espirituais  a  plano  secundário;  estamos  indo  bem,  mas ainda  corremos  riscos…
—  Sem dúvida,  perseverar  nas  obras  da  fé  é  um  constante  desafio  para  quem se  encontra  no  corpo  —  observei.
—  A gente  fica  tanto  tempo  sem  fazer  nada,  que,  quando  abre  os  olhos  e percebe  a  extensão  do  serviço,  chega  a  experimentar  um  certo  desânimo  — comentou  Odilon,  que  prosseguiu. 
—  E  passamos  a  cumular  os  outros  de exigências,  reclamando  porque  não  encontramos  cooperação  à  altura,  porque  nos sentimos  sobrecarregados,  porque  a  Doutrina  nos  exorta  a  um  maior desprendimento,  e  ainda  não  sabemos  conciliar  interesses  que,  em  essência,  são inconciliáveis… Efetuando  breve  intervalo,  o  diligente  amigo  que  todos  temos  à  conta  de devotado  Instrutor,  arrematou: — Não importa,  porém…  Hoje  já  estamos  melhores  do  que  ontem,  quando,  então, nos  lamentávamos  de  braços  cruzados,  entregues  à  inércia;  agora,  pelo  menos, num  nível  de  consciência  superior,  nos  atiramos  à  ”fogueira”  e  não  temos  como não  nos  chamuscarmos  em  suas  labaredas…  Este,  de  fato,  é  um  caminho  sem volta!  Com  menor  ou  maior  aproveitamento,  seguiremos  adiante.  Quem  descerra os  olhos  para  a  luz  não  mais  se  contenta  com  as  trevas,  O  nosso  mais  breve contato  com  o  Espiritismo  é  suficiente  para  incomodar-nos  pelo  resto  da  vida!…