Casa do Cinza

"O amor não cogita de recompensa. É um sentimento que se basta." Dr. Odilon Fernandes

NA PRÓXIMA DIMENSÃO – Cap. 11

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CAPÍTULO 11
Dos muitos amigos e companheiros de ideal presentes à recepção que o Mundo Espiritual organizou para Chico Xavier, este espírito cuja grandeza e valor nem nós, os desenfaixados do corpo denso, saberíamos avaliar, nos deparamos com Sebastião Carmelita, a quem já nos referimos, que se fazia acompanhar de Yvonne Pereira, a inesquecível medianeira de “Memórias de um Suicida”; Cairbar Schutel, o Apóstolo de Matão; e Batuíra, o grande baluarte na Doutrina em São Paulo.

Que os nossos irmãos que, porventura, estejam correndo os olhos por estas linhas, me perdoem a omissão involuntária de muitos nomes, pois impossível seria fornecer-lhes uma relação mais completa daqueles expoentes do Espiritismo que vieram saudar a Chico no limiar da Vida Nova.

Entrando a conversar com os referidos confrades, Carmelita deu início ao diálogo, dirigindo-me a palavra:

– Meu caro Inácio, estou deveras impressionado… Eu não podia imaginar a importância da tarefa confiada ao nosso Chico. Tendo tido a oportunidade de privar com ele em algumas ocasiões, eu o admirava pela generosidade de coração e pela autenticidade de suas faculdades mediúnicas, mas… o seu espírito transcendia a tudo isto; confesso-lhe que não atinei com a sua elevação espiritual…

– Os grandes espíritos, Carmelita — aparteou Odilon —, sabem como se camuflar na carne; se, sem se expor tanto, ele suportou ferrenhas perseguições, pensemos no que seria, caso as trevas tivessem “acordado” antes… Não nos esqueçamos de que, nos últimos três anos, os espíritos que se opõem ao Evangelho tentaram comprometê-lo de todas as formas, mas, então, ele já estava a cavaleiro da trama em que procuraram enredá-lo.

— Você tem razão, Odilon — disse Yvonne Pereira.

— Se, em meu diminuto trabalho na condição de médium, me submeti a terríveis assédios e, várias vezes, cheguei a considerar a possibilidade de me afastar, meditemos no que o Chico terá enfrentado para não esmorecer e, é bom que se diga, de desencarnados e encarnados, de não-espíritas e, principalmente, de espíritas. Infelizmente, sempre fomos os mais exigentes… com os outros e por demais condescendentes conosco. O personalismo talvez seja a maior característica de nossa imperfeição; supomos sermos o que efetivamente não somos e nos conferimos, na Doutrina, uma importância que não temos…

— Yvonne — falou o venerável Batuíra —, combati, em mim, essa tendência personalista a vida inteira… Não é fácil para o espírita administrar as próprias mazelas. Estamos imersos nas sombras por muito tempo e, de repente, a luz: ficamos desnorteados, sem saber o que fazer de nós mesmos e nos tornamos presas indefesas dos espíritos que permaneçam à espreita; não fosse a proteção da Misericórdia Divina, cairíamos freqüentemente… De minha parte, afirmo-lhes que procuro me esquecer no trabalho; envolvia-me com os meus doentes, escrevia os meus artigos, orava diariamente, enfim, procurava dar ocupação às mãos e à mente, pois, caso contrário… As vezes, com o propósito de me defender, chegava a ser ríspido com quem me elogiava:

aquelas palavras melífluas soavam aos meus ouvidos como uma cantilena satânica… Felizmente, pude agüentar-me de pé e não me precipitei no abismo de maiores desilusões; não fiz o que deveria ter feito, mas, pelo menos, não cruzei os braços na ociosidade…

— Compreendo o que o nosso Batuíra quer dizer — asseverou Cairbar. Eu também travei lutas sem tréguas… Em muitas ocasiões, os espíritos obsessores me perturbavam tanto, que quase chegava a enlouquecer; eu os ouvia claramente com as propostas escusas que me dirigiam… Não me poupavam nem quando estava em franca atividade doutrinária. Só experimentava certo distanciamento deles quando estava cuidando dos doentes que me buscavam o concurso fraternal ou, então, na condição de enfermo de alma, eu tomava a iniciativa de procurá-los…

— O que o nosso Chico não terá agüentado, não é mesmo?… — indaguei, refletindo nos problemas que igualmente faceara à frente do Sanatório. Por muito menos que ele, os padres planejavam fazer churrasco de mim; mentiras e calúnias eram todos os dias; diziam que eu estava enriquecendo à custa dos dementes e que, a noite, ia para o hospital promover orgias com os meus pacientes… Eu, pelo menos, ainda os mandava a todos para o Inferno e chegava mesmo a acreditar na existência dele, porque, afinal de contas, tinha que existir um lugar chamado Inferno para receber tanta gente sem escrúpulos… Agora, coitado, o nosso Chico nem desabafar podia!…

— Coitado de mim, Dr. Inácio, assim como do senhor e do nosso Paulino! (perdoem-me incluí-los comigo nesta lista), que, embora fora do corpo, continuamos a nos arrastar como se nele ainda estivéssemos —falou Lilito Chaves, já um tanto refeito da emoção de instantes atrás. — Viu como o Chico subiu e quem veio buscá-lo?… Eu pensei que tivera feito muita coisa, mas a verdade é que nada fiz. Se não fosse o conhecimento da Doutrina, teria feito menos ainda, mas…

— A fórmula — tomou novamente Yvonne a palavra — está em sabermos conciliar o cultivo de nós mesmos, que nos requisita momentos de introspecção, e o trabalho em beneficio dos outros… Uma centração e uma descentração, como nos ensinava Teilhard de Chardin. Não podemos nos isolar e não podemos deixar de nos recolher à nossa própria intimidade; carecemos de imitar o movimento das ondas do mar, que se retraem e, de novo, se lançam à praia, como se estivessem num eterno movimento de expansão.

– Resumindo — interveio Carmelita com liberdade é pegar na charrua e, incansavelmente, lavrar e semear… Em se tratando de caridade, é preferível fazer sem pensar; quem se procura muito em si mesmo acaba se perdendo… Vejamos o exemplo de Chico, que nunca se afastou do convívio com o povo; creio que se ele tivesse, mediunicamente, trabalhado mais recluso, talvez as suas obras tivessem ganhado em profundidade, mas, com certeza, teriam perdido em luz espiritual.

Os livros psicografados por ele tão impregnados estão de luz, que bastará a qualquer um tê-los nas mãos para que comece a se iluminar; de cada página emana uma resplendência divina que esclarece e emociona…

— Ao contrário das obras tão humanizadas de muitos outros medianeiros — asseverou Lilito, pesaroso.

— Mas cada qual faz o que pode — retrucou Odilon.

— Não podemos exigir que todos os médiuns se nívelem a Chico Xavier; seria um contra-senso… Em um pomar, cada árvore frutífera é fadada a produzir de acordo com a sua capacidade: entre frutos da mesma espécie, iremos encontrar diferenças de qualidade… Cabe, a quem vai à feira, escolher o que adquire para lhe atender a fome. Não podemos, Lilito, exigir que os nossos irmãos médiuns se trajem, do ponto de vista moral, de acordo com o figurino que talhamos para eles; não raro, sem perceber, estabelecemos comparações e chegamos a ser cruéis com aqueles medianeiros que não são candidatos a missionários mas, sim, à quitação dos próprios débitos.

A conversa seguia interessante, mas as imediações do velório começavam a se esvaziar; quase todas as luzes que se haviam naturalmente acendido já se haviam apagado e, no ar, permanecia apenas doce fragrância que nos inebriava… Estávamos preparando-nos para retornar às nossas atividades, quando Batuíra, num largo sorriso, saudou o companheiro que se aproximava:

– José Gonçalves Pereira!… Como vai você, meu irmão? Onde é que estava, que eu não pude encontrá-lo antes?…

Autor: Casa do Cinza - Centro Espírita

Casa do cinza é um centro espírita fundado pelo Dr. Odilon Fernandes em homenagem ao seu pai Ludovice Fernandes (Cinza). Este centro foi o primeiro a acolher Chico Xavier quando de sua chegada a Uberaba.

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